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Bariloche: a emoção de ver a neve pela primeira vez

Junho de 1990

Um encontro inesquecível com a Patagônia Argentina

Depois de cruzar a Cordilheira dos Andes pela Travessia dos Lagos Andinos, finalmente chegamos a San Carlos de Bariloche. Era o encerramento de um dos percursos mais bonitos que já havíamos realizado, mas também o início de uma nova etapa da viagem. Cercada por montanhas, bosques e lagos de origem glacial, Bariloche parecia reunir tudo aquilo que imaginávamos quando pensávamos na Patagônia. As construções em madeira e pedra, a arquitetura inspirada nas cidades alpinas europeias e o frio intenso criavam um ambiente completamente diferente de tudo o que eu havia conhecido até então. Para quem nasceu e cresceu na Bahia, aquela paisagem parecia pertencer a outro continente. E, de certa forma, pertencia mesmo. Era um mundo completamente novo se abrindo diante dos nossos olhos.

Patagônia Argentina

A primeira neve a gente nunca esquece

Entre todas as lembranças daquela viagem, uma permanece especialmente viva na memória: ver a neve pela primeira vez. Por mais que fotografias e filmes nos preparem para esse momento, nada se compara à sensação de estar diante de montanhas completamente cobertas de branco. A subida ao Cerro Catedral revelou um cenário que parecia saído de um cartão-postal. O silêncio da neve, interrompido apenas pelo vento, transmitia uma tranquilidade difícil de descrever. Caminhar sobre aquele tapete branco, sentir o frio intenso no rosto e observar a grandiosidade da Cordilheira dos Andes foram experiências que marcaram profundamente a minha relação com a natureza. Naquele instante, compreendi que algumas paisagens não se limitam a ser bonitas; elas despertam emoções que nos acompanham para sempre.

O primeiro contato com a neve

O Cerro Catedral

Localizado a cerca de vinte quilômetros do centro de Bariloche, o Cerro Catedral é considerado um dos maiores centros de esportes de inverno da América do Sul. Seu nome faz referência às formações rochosas que lembram torres de uma catedral gótica. Durante o inverno, milhares de esquiadores ocupam suas pistas, enquanto, nas demais estações, trilhas, teleféricos e mirantes revelam panoramas espetaculares sobre os lagos e montanhas da região. Mesmo para quem nunca praticou esqui, como era o nosso caso, visitar o Cerro Catedral é uma experiência inesquecível. A combinação entre altitude, neve e a imponência dos Andes transforma qualquer passeio em um espetáculo da natureza.

Cerro Catedral

Uma cidade entre lagos e montanhas

Bariloche faz parte do Parque Nacional Nahuel Huapi, o mais antigo da Argentina, criado em 1934 para proteger uma das áreas naturais mais importantes do país. A cidade desenvolveu-se a partir da chegada de imigrantes europeus, principalmente suíços, alemães, austríacos e italianos, que trouxeram seus costumes, sua arquitetura e suas tradições gastronômicas. Essa influência é percebida até hoje nas construções em madeira, nas confeitarias, nas fábricas de chocolate e na culinária regional. Caminhar pelo Centro Cívico ou pelas margens do Lago Nahuel Huapi é perceber como a presença humana conseguiu integrar-se à paisagem sem retirar dela o protagonismo. Em Bariloche, a natureza continua sendo a grande estrela.

Parque Nacional Nahuel Huapi

Um programa inesperado 

Nossa viagem havia sofrido alterações por causa da interrupção de parte da Travessia dos Lagos Andinos. Para compensar o transtorno, a operadora decidiu oferecer ao grupo um passeio de barco pelo Lago Nahuel Huapi até a Ilha Victoria. O que poderia ser apenas um gesto de cortesia acabou se transformando em um dos momentos mais agradáveis de toda a viagem. Navegar por aquele lago de águas profundas e transparentes, cercado por montanhas e florestas, proporcionava uma sensação permanente de tranquilidade. À medida que a embarcação avançava, o cenário tornava-se cada vez mais impressionante, mostrando que a Patagônia guarda paisagens capazes de surpreender até os viajantes mais experientes.

Ilha Victoria

Ilha Victoria: um paraíso escondido na Patagônia

Ao desembarcarmos na Ilha Victoria, tivemos a sensação de entrar em um lugar onde o tempo passa em outro ritmo. Trilhas bem preservadas atravessavam bosques de árvores centenárias, enquanto pequenas praias de águas cristalinas revelavam diferentes perspectivas do Lago Nahuel Huapi. A ilha reúne espécies nativas e árvores introduzidas de diversas partes do mundo, formando uma combinação paisagística bastante singular. O silêncio, a pureza do ar e a beleza da vegetação criavam um ambiente de absoluta contemplação. O passeio renovou completamente o entusiasmo do grupo e praticamente apagou a frustração causada pelas mudanças no roteiro original. Às vezes, as melhores lembranças surgem justamente das experiências que não estavam previstas.

Um paraíso escondido na Patagônia

Frustração na Copa do Mundo de 1990

Quando chegou o momento de seguir para Buenos Aires, o grupo vivia um clima de grande amizade. Havia ainda um ingrediente especial naquela viagem: era período de Copa do Mundo, e justamente naquele dia Brasil e Argentina disputavam uma partida decisiva. Saímos de Bariloche acompanhando o jogo e comemorando a vantagem brasileira. Embarcamos confiantes de que desembarcaríamos em Buenos Aires celebrando uma vitória histórica. Durante o voo, porém, tudo mudou. Ao pousarmos, recebemos a notícia de que a Argentina havia virado a partida e eliminado o Brasil. A frustração foi inevitável, especialmente porque estávamos justamente no país do adversário. Felizmente, bastaram poucas horas para que Buenos Aires nos conquistasse com sua elegância, sua gastronomia e sua atmosfera vibrante. A viagem, eramaior do que qualquer resultado de futebol.

Frustração na Copa do Mundo de 1990

Algumas paisagens permanecem para sempre

Décadas depois daquela primeira viagem internacional, continuo conhecendo novos países, novas culturas e novas paisagens. Ainda assim, Bariloche ocupa um lugar especial na memória. Não apenas por ter sido o cenário do meu primeiro encontro com a neve, mas porque ali compreendi que viajar também é construir referências emocionais. Sempre que vejo montanhas cobertas de branco ou lagos de origem glacial em qualquer parte do mundo, inevitavelmente volto àquele inverno na Patagônia. Algumas viagens nos encantam. Outras nos transformam. E Bariloche conseguiu fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Paisagens que permanecem para sempre

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