30 de março de 2026
Hokkaido, uma terra de Fogo e de Gelo
Hokkaido é a segunda maior ilha e a mais setentrional do arquipélago japonês, no Círculo do Fogo do Pacífico, perto da Rússia. Apresenta características distintas em relação ao restante do país. Com muito gelo e alguns vulcões ativos, Hokkaido é “literalmente”, a Terra do Fogo e do gelo. Possui hoje 6 milhões de habitantes e uma grande área, o que lhe garante uma menor densidade populacional. A ocupação do território ocorreu de forma mais recente, a partir de 1860, quando o governo japonês, da dinastia Meiji, incentivou o desenvolvimento da região. Os ventos que varrem a ilha vêm da Sibéria, resultando num clima mais frio, com invernos rigorosos, que podem chegar a menos trinta graus centígrados e presença frequente de neve. Hokkaido tem importância estratégica, por sua posição geográfica voltada para o norte e proximidade com a Ásia, além de desempenhar papel relevante na agricultura, pesca e defesa do território.
Hakodate, um porto histórico no norte do Japão
Hakodate está localizada no sul da ilha de Hokkaido, numa posição estratégica. Se destaca como um dos principais portos históricos do país. Foi uma das primeiras cidades japonesas abertas ao comércio internacional no século XIX, o que trouxe influências externas perceptíveis na arquitetura e na organização urbana. A cidade se desenvolve em uma faixa estreita de terra entre duas porções de mar, o que define seu formato e facilita a leitura geográfica a partir de pontos mais altos. Ao longo da visita, observamos essa relação direta com o porto, que segue ativo e integrado ao cotidiano local. Hakodate também teve papel estratégico em momentos importantes da história japonesa, especialmente no período de transição para a modernidade, reforçando sua relevância dentro do contexto do norte do país.
O fim do Japão feudal
Entre os séculos XII e XIX, o Japão viveu um longo período feudal marcado pelo poder dos xoguns e pela presença dos samurais, classe guerreira que organizava a estrutura social e militar. Durante o Período Edo, o país adotou uma política de isolamento conhecida como sakoku, restringindo fortemente o contato com o exterior e limitando o comércio a poucos portos autorizados. Essa condição começou a mudar em meados do século XIX, quando a pressão externa, especialmente dos Estados Unidos, forçou a abertura dos portos japoneses ao comércio internacional. Esse processo desencadeou tensões internas que culminaram na Guerra Boshin (1868–1869), uma guerra civil que marcou o fim do sistema feudal e a restauração do poder imperial, abrindo caminho para a modernização do país.
Samurais e xoguns
Os samurais eram a classe guerreira do Japão feudal, responsáveis pela defesa dos territórios e pela manutenção da ordem sob o comando de senhores feudais (daimyō). Seguiam um código de conduta conhecido como bushidō, baseado em lealdade, disciplina e honra, e tinham papel central na organização social e militar entre os séculos XII e XIX. Os xoguns eram os líderes militares supremos, que concentravam o poder político e governavam o país em nome do imperador, que mantinha uma posição mais simbólica. O sistema de xogunato estruturou o Japão por longos períodos, com destaque para o Período Edo, quando houve estabilidade interna e forte controle social.
Samurais x tropas imperiais
Durante a Guerra Boshin, o Japão viveu o confronto entre as forças leais ao xogunato, formadas em grande parte por samurais e as tropas do imperador, que defendiam a centralização do poder e a modernização do país. Esse embate marcou a transição de um sistema feudal para um Estado mais alinhado com modelos ocidentais, incluindo a reorganização do exército com técnicas e armamentos mais modernos. Hakodate teve papel central nesse contexto, foi o último reduto das forças ligadas ao antigo xogunato. Ali surgiu uma tentativa de manter a autonomia dos samurais no norte do país. O conflito final ocorreu na região, consolidando a vitória das tropas imperiais.
Forte Goryokaku, a influência ocidental na arquitetura militar do Japão
Visitamos o Forte Goryokaku, uma fortificação construída no século XIX sob influência militar ocidental. Concluído em 1864, seu formato em estrela reflete um modelo europeu pensado para defesa estratégica, ampliando o campo de visão e reduzindo pontos vulneráveis. Ao caminhar pelo interior do forte, percebemos como a estrutura foi adaptada ao contexto japonês, em um momento de transição e modernização do país. A área hoje funciona como parque público, com circulação livre ao redor dos antigos fossos e muralhas. A visita é tranquila, permitindo acompanhar o traçado original e entender a lógica defensiva do conjunto. foi uma das primeiras fortificações japonesas em estilo ocidental.
O “último samurai”
Seguimos para a Goryokaku Tower. Uma grande e moderna torre, em frente ao Forte Goryokaku, com 107 metros de altura. Projetada para oferecer a vista aérea do desenho em estrela do forte, uma das características mais marcantes de Hakodate. Na base da torre existe uma escultura em homenagem a Sakamoto Ryōma, um dos personagens mais importantes do final do período feudal japonês. Nascido em 1836, ele foi um samurai que atuou como mediador político em um momento decisivo da história do Japão. Ryōma teve papel central na articulação da aliança que acabou sendo fundamental para a queda do xogunato durante a Guerra Boshin. Diferente de outros samurais mais conservadores, defendia a abertura do país ao exterior, a modernização das instituições e a criação de um governo mais centralizado. Foi assassinado em 1867, pouco antes da consolidação da restauração imperial.
Monte Hakodate: Vista da área portuária
A partir do centro da cidade, chegamos ao Monte Hakodate utilizando um teleférico. À medida que ganhamos altitude, a cidade vai se reorganizando visualmente, revelando sua forma característica, em uma estreita faixa de terra cercada por água dos dois lados. Do topo, observamos com clareza a área portuária de Hakodate, que ajuda a entender a importância histórica da cidade como ponto de contato com o exterior. A vista permite conectar paisagem, função econômica e posicionamento estratégico dentro do contexto do norte do Japão.
O Mercado de Hakodate
Na volta para o navio, visitamos o Hakodate Morning Market, o mercado da manhã da cidade, localizado próximo ao porto. O espaço reúne dezenas de bancas que vendem frutos do mar frescos, com destaque para caranguejos, peixes e ouriços, além de pequenas lojas e restaurantes que servem refeições simples ao longo do dia. Ao caminhar pelo mercado, conseguimos observar a relação direta entre a atividade pesqueira e o cotidiano local, com uma oferta organizada e bem apresentada dos frutos-do-mar. É um ambiente funcional, sem excesso de formalidade, que permite entender como o mar está presente na dinâmica econômica e alimentar de Hakodate.
Começamos a Navegar pela costa oeste da Ilha de Honshu
Retornamos ao Azamara Pursuit e seguimos viagem pela costa oeste da Ilha de Honshu. A navegação nesse trecho permite acompanhar, ainda que à distância, a linha costeira voltada para o Mar do Japão, com paisagens que alternam áreas urbanizadas e trechos mais preservados. Esse deslocamento ajuda a entender a diversidade geográfica do país, além de reforçar a importância do litoral na ocupação e no desenvolvimento das cidades japonesas. Foi um momento mais tranquilo da viagem, já adaptados ao ritmo do navio e preparando a sequência das próximas escalas.
