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Jaguaquara, Um Pouquinho do Meu Lugar

Como o objetivo desse blog é escrever e mostrar “Um Pouquinho de Cada Lugar”, achei que tinha a obrigação de fazer este post contando um pouquinho do meu lugar. Nasci em Jequié, mas nunca me identifiquei muito com a cidade natal. Sempre tive Jaguaquara como a “minha” cidade. Fui morar em Jaguaquara em 1962, com 4 anos, aí passei parte da minha infância e sempre voltei na adolescência. Foi aí que aprendi a ler, escrever, fazer as primeiras traquinagens, conviver com pessoas. Foi aí que aprendi a namorar.

Vista panorâmica da cidade de Jaguaquara na Bahia.

Vivi em Jaguaquara de 1962 a 1969 e para lá voltei ininterruptamente de 1970 a 1982. Anos tensos de golpe militar, do surgimento da Jovem Guarda ao surgimento do Tropicalismo. Anos de Festivais, de Guerra do Vietnã, de movimento feminista, da pílula anticoncepcional, do movimento hippie, de protestos estudantis, de repressão, de grandes transformações no mundo. Era incrível como tudo isso mexia e fazia Jaguaquara fervilhar.

A Igreja Matriz de Jaguaquara.

Uma cidadezinha encravada no agreste, no sudoeste da Bahia, mas que estava absolutamente antenada com o mundo. Acho que Jaguaquara já era naquela época um símbolo de globalização, pois mesmo sem os modernos sistemas de comunicação que temos hoje. Lá em Jaguaquara sabíamos, vivíamos e participávamos de tudo. À noite, na rua da Coréia, onde ficavam bares e casas de prostituição (o Bataclan de Jaguaquara), as conversas e conspirações eram animadas.

O bonito prédio da Prefeitura Municipal de Jaguaquara.

Na década de 80 Jaguaquara tinha uma das melhores festas de São João da Bahia. Foi ali que o autêntico São João com fogueiras, fogos, quadrilhas e muito forró conseguiu a sua mais espontânea representação. Ainda hoje, os amigos que fiz na infância e juventude voltam todos os anos para as festas juninas e fazem o tradicional arrastão. Uma multidão sai de casa em casa, cantando e dançando forró. As casas ficam abertas e colocam uma mesa farta com comidas típicas da época e muito “quentão”. Uma bebida típica de Jaguaquara associada ao São João é o vinho de laranja, muito consumido nesse período.

A Toca da Onça.

A cidade sempre teve orgulho do seu sistema de educação, talvez por isso estivesse à frente no seu tempo. Surgiu de uma antiga fazenda no Vale do Rio da Casca, na Bacia do Jequiriçá, pertencente a Guilherme do Eirado e Silva e a sua esposa Luzia, que chegaram aí no final do século XIX. O povoado que se instalou na Fazenda Toca da Onça, cresceu rapidamente a partir do momento em que na região foi construída a Estrada de Ferro de Nazaré.  Ganhou o status de município em 1923, quando já se chamava Jaguaquara (Toca da Onça em Tupi).

A onça. Símbolo de Jaguaquara.

A primeira grande escola de Jaguaquara e que foi responsável por torná-la uma referência em educação no Estado da Bahia, foi o Colégio Taylor-Egídio, fundado em Salvador em 1898, pelo missionário evangélico americano Zacarias Clay Taylor e sua esposa Laura e transferido para Jaguaquara em 1922, quando recebeu terras em doação do Capitão Egídio Pereira de Almeida. O colégio foi implantado nas terras de Egídio e foi referência para a Bahia até a década de 70. Muitos jovens saíam de Salvador para estudar em Jaguaquara em regime de internato.

A Ladeira da Muritiba. Divisor urbano da cidade.

Em 1950 Jaguaquara recebeu o Colégio Luzia Silva a partir de uma doação de Guilherme Martins do Eirado e Silva, da antiga casa sede da sua fazenda para que as irmãs Franciscanas instalassem na cidade uma escola católica, dando início à rivalidade que imperou aí por muito tempo, com reflexos na política, entre católicos e protestantes. Foi no Luzia Silva que estudei o curso primário.

Colégio Luzia Silva, a antiga sede da fazenda Toca da Onça.

Em 1961 foi a vez do Colégio Pio XII, dos padres capuchinhos. A rivalidade entre católicos e protestantes foi boa para Jaguaquara, pois obrigou os religiosos a empreenderem sistemas de educação objetivando cooptar mais fiéis. Nas décadas de 60 e 70, a rivalidade entre os colégios Pio XII e Taylor-Egídio impulsionavam a juventude de Jaguaquara. No início dos anos 60 Jaguaquara já possuía 3 boas escolas, enquanto a maioria dos municípios da Bahia não tinham nenhuma.

Auditório do Colégio Pio XII. Ativo desde a década de 60.

Na história da cidade os imigrantes tiveram um papel muito importante. Na década de 50 vieram os italianos e os japoneses que saíam dos seus países empurrados pela crise do pós-guerra. Esses imigrantes ajudaram a desenvolver um polo agrícola na região, que se tornou uma referência no Estado. Próximo à Praça da Feira existe um monumento em homenagem aos imigrantes: Portugueses, Italianos e Japoneses.

Monumento em homenagem aos imigrantes de Jaguaquara.

Jaguaquara hoje é uma cidade menos vibrante. A topografia ondulada dificulta as intervenções urbanas. A falta de planejamento no passado diminuiu as suas chances. Jaguaquara hoje não tem praça. Uma cidade sem praça é uma cidade sem convivência. A antiga Praça J J Seabra, era o centro vibrante do passado. No meio um belo viveiro de pássaros, no jardim onde jogávamos gude, passeavam siriemas e pavões. Nos entornos, o Cine Bahia que passava os melhores filmes do momento e o Bar de Pedrinho eram pontos de encontro.

O que sobrou da Praça J J Seabra.

A Praça era ainda o centro político, pois ali ficavam a prefeitura e algumas das principais casas comerciais, como a Loja Nery e a Casa Amaral. Tudo girava em torno da praça. Aí perto fica a Rua Siqueira Campos (Rua da Bandinha). Um apelido carinhoso que dávamos por ter apenas um lado. Foi aí que vivi nos anos 60.

A casa em que vivi na década de 60.

Soube com tristeza, outro dia, que uma das únicas casas históricas da cidade, antiga casa de farinha da Fazenda Toca da Onça, de Guilherme Silva e residência do ex-deputado Menandro Minahim, havia sido derrubada. A história de Jaguaquara está ficando na memória das pessoas.

O local da antiga Casa de Farinha da Fazenda Toca da Onça.

Voltei a Jaguquara em 2010 para receber uma homenagem da Câmara de Vereadores da cidade. Os vários homenageados do evento tinham em comum o fato de não terem nascido em Jaguaquara, mas a escolheram como Cidade Mãe. Para mim e tenho certeza para a maioria dos que estavam ali, foi uma honraria sem precedentes. Hoje sou filho de Jaguaquara, aliás sempre fui, a homenagem apenas tornou isso público.

Alguns dos homenageados: Márcia Eirado, Sérgio Belleza, Sebastião Nery, Beatriz, Valcy Barreto e Joaquim Nery.
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