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Da Bastilha à Champs-Élysées: dois lados de Paris

02 e 03 de janeiro de 1992

De Rotterdam, de volta a Paris

O dia 2 de janeiro de 1992 começou ainda em Rotterdam, resolvendo as consequências do roubo que havíamos sofrido em Haia. Fomos à polícia registrar a ocorrência e depois levamos o carro a uma oficina autorizada da Mercedes para trocar o vidro quebrado e reparar o painel. O serviço consumiu boa parte do dia e só ficou pronto por volta das 15 horas. Enquanto esperávamos, pegamos um táxi até o centro de Rotterdam e aproveitamos para conhecer um pouco mais da cidade e circular pelas lojas. Com o carro finalmente consertado, retomamos a estrada em direção a Paris. Chegamos por volta das 19h30 e terminamos o dia jantando no A Família, um restaurante italiano recém-inaugurado que nos deixou uma ótima impressão.

Retornando a Paris

Uma manhã sozinho pelas ruas de Paris

Na manhã seguinte, 3 de janeiro, resolvi sair sozinho para caminhar por Paris. Comecei pela Praça da Bastilha, um dos lugares mais simbólicos da história francesa. Foi ali que existiu a fortaleza e prisão da Bastilha, tomada pela população em 14 de julho de 1789, episódio que se tornou um dos grandes símbolos da Revolução Francesa. A antiga fortaleza desapareceu, mas a praça continuou profundamente associada à história política do país. No centro está a Coluna de Julho, construída para lembrar outra revolução, a de 1830. A região abriga ainda a moderna Ópera da Bastilha e continua sendo um dos pontos tradicionais de concentração de manifestações políticas e sociais da capital francesa.

Place de la Bastille

Place des Vosges, uma Paris mais silenciosa

Da Bastilha segui para a Place des Vosges, no Marais. Depois da movimentação das grandes avenidas parisienses, entrar naquela praça perfeitamente desenhada produzia uma sensação completamente diferente. Cercada por construções de tijolos vermelhos e pedra, com fachadas praticamente simétricas, ela preserva uma elegância discreta. Criada no início do século XVII durante o reinado de Henrique IV, é uma das praças planejadas mais antigas de Paris. Seus edifícios formam um quadrilátero harmonioso em torno de jardins, árvores e caminhos que convidam a andar sem pressa. Nas arcadas instalaram-se, ao longo do tempo, galerias, lojas, cafés e restaurantes. Era mais uma descoberta daquela primeira viagem: Paris podia ser monumental, mas também reservava espaços quase escondidos, onde a cidade parecia seguir outro ritmo.

Place des Vosges

Victor Hugo e a memória de Os Miseráveis

Um endereço em particular torna a Place des Vosges ainda mais interessante. Em um dos edifícios da praça viveu Victor Hugo, um dos maiores escritores franceses e autor de Os Miseráveis e Notre-Dame de Paris. Sua antiga residência tornou-se a Maison de Victor Hugo, dedicada à trajetória pessoal e literária do escritor. Em Paris, história, literatura, arquitetura e vida cotidiana aparecem misturadas pelas ruas. Muitas vezes caminhamos por uma praça ou entramos em um café sem perceber quantos personagens importantes passaram exatamente pelos mesmos lugares. Naquela viagem, descobrir essas relações fazia parte do encantamento de conhecer Paris pela primeira vez.

Place des Vosges

O Museu d’Orsay estava fechado

Mais tarde seguimos para o Museu d’Orsay, mas encontramos suas portas fechadas. Mesmo sem conseguir visitar o acervo, o edifício já merecia atenção. Instalado na antiga Gare d’Orsay, construída para a Exposição Universal de 1900, o prédio ocupa uma posição privilegiada às margens do Sena e é uma das construções mais bonitas de Paris. Hoje sabemos que ali está uma das maiores coleções de arte impressionista e pós-impressionista do mundo, com obras de artistas como Monet, Renoir, Degas e Van Gogh. Naquele janeiro de 1992, porém, tivemos de deixar a visita para outra oportunidade. Era uma situação comum naquela viagem: não tínhamos internet, aplicativos ou informações instantâneas. Muitas vezes simplesmente chegávamos ao lugar e descobríamos se estava aberto ou fechado.

Museu d’Orsay

Caminhando pela Champs-Élysées

Seguimos então a pé pela Avenida de Champs-Élysées, uma das avenidas mais conhecidas do mundo. Com aproximadamente 1,9 quilômetro de extensão, ela liga a Place de la Concorde à Place Charles-de-Gaulle, onde está o Arco do Triunfo. Suas largas calçadas, cafés, cinemas, restaurantes e vitrines transformaram o endereço em uma espécie de vitrine de Paris. Naquele início dos anos 1990, caminhar pela Champs-Élysées tinha um significado especial para quem chegava pela primeira vez à Europa. Muitos dos nomes, automóveis, marcas e lugares que conhecíamos apenas através de revistas, filmes e televisão estavam finalmente diante de nós. E havia ainda o movimento constante de parisienses e turistas, que fazia da avenida um espetáculo por si só.

Avenida de Champs-Élysées

Uma loja de discos que parecia inacreditável

Entre tantas vitrines, uma parada ficou especialmente guardada na memória: a Virgin Megastore. Para os padrões daquela época, entrar numa loja de discos com vários pavimentos e um acervo gigantesco de CDs era uma experiência impressionante. Hoje, quando praticamente toda a música do mundo cabe dentro de um telefone, talvez seja difícil compreender o impacto que uma loja como aquela provocava. No começo dos anos 1990, comprar discos ainda fazia parte da experiência de viajar. Procurávamos lançamentos, gravações difíceis de encontrar no Brasil e artistas que conhecíamos apenas parcialmente. Passei um bom tempo explorando aquele universo e saí maravilhado. Era também uma fotografia daquele momento histórico, quando o CD representava modernidade e grandes lojas de música ainda ocupavam endereços privilegiados das principais cidades do mundo.

O Arco do Triunfo

Paris entre a memória e o presente

Terminamos o passeio fazendo uma parada no Café George V antes de voltar para casa. Revendo hoje as fotografias daquela viagem e comparando-as com outras feitas muitos anos depois nos mesmos lugares, percebo como Paris consegue mudar sem perder suas referências fundamentais. A Place des Vosges continua preservando sua arquitetura do século XVII. A Bastilha permanece como símbolo político mesmo sem a fortaleza que lhe deu o nome. A Champs-Élysées se transforma acompanhando cada época, enquanto o Arco do Triunfo continua dominando sua perspectiva. Algumas coisas, porém, desapareceram, como a enorme Virgin Megastore que tanto me impressionou. É essa mistura de permanências e mudanças que torna interessante retornar a uma cidade décadas depois e reencontrar os lugares que fizeram parte das primeiras viagens.

Avenida de Champs-Élysées

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