Europa, dezembro de 1991
Um novo dia para descobrir Paris
Nosso segundo dia em Paris começou com a expectativa de conhecer novos cenários da capital francesa. Era 27 de dezembro de 1991, e ainda vivíamos intensamente a emoção daquela primeira viagem à Europa. Acompanhados por nossos anfitriões, Sebastião Nery e Cristina, iniciamos um passeio panorâmico que nos permitiu observar diferentes paisagens da cidade. Paris começava a se revelar não apenas por seus monumentos mais famosos, mas também por seus parques, bairros, cafés e espaços ligados à história intelectual da França. Ser guiado por Sebastião, jornalista, escritor e, naquela época, Adido Cultural do Brasil em Paris, tornava cada parada ainda mais interessante. Ele conhecia profundamente a cidade e acrescentava informações, personagens e acontecimentos que davam um novo significado aos lugares visitados.
Bois de Boulogne, o pulmão verde do oeste parisiense
Nossa primeira parada foi no Bois de Boulogne, o Bosque de Bolonha, localizado na região oeste de Paris. Com aproximadamente 850 hectares, é uma das maiores áreas verdes da capital francesa e funciona como um importante espaço de lazer e contato com a natureza. Antiga área de caça da monarquia, o bosque foi transformado em parque público durante o governo de Napoleão III, no século XIX. Atualmente, reúne lagos, jardins, trilhaas para caminhadas e diversas áreas recreativas. Naquele inverno de 1991, o cenário apresentava uma Paris diferente daquela dos grandes bulevares e monumentos. O bosque revelava uma cidade capaz de preservar extensas áreas verdes mesmo dentro de uma das maiores metrópoles europeias.
A Torre Eiffel vista do Trocadéro
Na sequência, seguimos até o Palais de Chaillot, na região do Trocadéro. De sua esplanada, encontramos uma das perspectivas mais famosas e impressionantes da Torre Eiffel. À nossa frente estavam os Jardins do Trocadéro, o Rio Sena, a torre e, logo depois, o amplo gramado do Champ de Mars. Era uma imagem que conhecíamos de fotografias, livros e filmes, mas que finalmente se materializava diante de nós. Construído para a Exposição Internacional de 1937, o Palais de Chaillot possui dois grandes pavilhões separados por uma esplanada aberta, que funciona como uma espécie de mirante para a Torre Eiffel. Mesmo sob o frio do inverno, permanecemos algum tempo contemplando aquela paisagem, ainda tomados pela emoção dos primeiros encontros com os símbolos de Paris.
Rumo à Rive Gauche
Depois de atravessarmos parte da cidade, seguimos para a Rive Gauche, a margem esquerda do Rio Sena. Essa região de Paris ficou historicamente associada às universidades, às editoras, às livrarias e aos movimentos artísticos e intelectuais. Bairros como Saint-Germain-des-Prés e o Quartier Latin foram frequentados durante décadas por escritores, filósofos, pintores, estudantes e pensadores de diferentes partes do mundo. Era justamente nesse ambiente que viveríamos uma das experiências mais marcantes daquele dia: conhecer dois estabelecimentos que atravessaram séculos preservando sua importância cultural. Primeiro, almoçaríamos no Le Procope. Depois, seguiríamos até o Les Deux Magots, um dos cafés literários mais conhecidos de Paris.
Le Procope, uma porta para o passado
Localizado na Rue de l’Ancienne-Comédie, nas proximidades do Boulevard Saint-Germain, o Le Procope é considerado um dos restaurantes mais antigos de Paris. Fundado em 1686 pelo siciliano Francesco Procopio dei Coltelli, tornou-se um importante ponto de encontro de escritores, filósofos, políticos e intelectuais. Mais do que um restaurante, o lugar parece guardar parte da memória cultural e política da França. Seus salões decorados, documentos históricos e referências a personagens célebres ajudam a recriar a atmosfera de outros séculos. Para nós, que estávamos conhecendo a Europa pela primeira vez, sentar à mesa em um ambiente tão carregado de história era uma experiência fascinante. Não estávamos apenas diante de uma boa refeição francesa, mas dentro de um espaço ligado a importantes acontecimentos da história do país.
Filósofos, escritores e revolucionários
Ao longo de sua história, o Le Procope foi associado a nomes como Voltaire, Rousseau, Diderot e Benjamin Franklin. Durante o período da Revolução Francesa, também foi frequentado por figuras como Danton, Marat e Robespierre. As discussões realizadas em seus salões acompanhavam as grandes transformações políticas, sociais e intelectuais que mudariam a França e influenciariam o mundo ocidental. O restaurante preserva objetos, documentos e referências a esses personagens, reforçando a sensação de que cada mesa e cada corredor possuem histórias para contar. Sebastião nos explicava os acontecimentos e os relacionava aos personagens que haviam passado pelo local. Com isso, o almoço se transformou em uma aula de História vivida dentro de um de seus próprios cenários.
A gastronomia também conta histórias
Apesar da importância histórica, o Le Procope não vive apenas das lembranças de seus frequentadores ilustres. O restaurante também mantém sua tradição gastronômica, oferecendo pratos clássicos da culinária francesa. Na França, patrimônio histórico e gastronomia caminham lado a lado. Os restaurantes não são apenas espaços destinados às refeições. Muitos fazem parte da própria identidade dos bairros e preservam costumes que atravessaram diferentes gerações. Entre salões elegantes, objetos antigos e conversas sobre a Revolução Francesa, tivemos uma experiência que unia sabores, cultura e memória.
Caminhando por Saint-Germain-des-Prés
Depois do almoço, seguimos a pé pelas ruas de Saint-Germain-des-Prés. Uma região de Paris ligada à literatura, à filosofia e às artes. Livrarias, galerias, igrejas, cafés e edifícios históricos ajudavam a construir uma atmosfera muito particular. O bairro ganhou grande projeção cultural especialmente durante o século XX, quando passou a reunir escritores, artistas e pensadores que discutiam novas ideias sobre política, comportamento e sociedade. A cada esquina, Sebastião apontava um lugar importante ou lembrava algum personagem que havia vivido naquela região. Nosso próximo destino estava diretamente relacionado a esse universo: o Les Deux Magots, instalado na Place Saint-Germain-des-Prés, diante da histórica igreja que dá nome ao bairro.
Les Deux Magots, o café dos intelectuais
O nome Les Deux Magots refere-se às duas figuras orientais que fazem parte da decoração do estabelecimento. O negócio teve origem no século XIX como uma loja de tecidos e novidades, sendo transformado em café e bar de licores em 1884. Com o passar dos anos, tornou-se um dos principais pontos de encontro da vida intelectual parisiense. Alguns dos grandes escritores franceses estiveram entre seus frequentadores célebres. Posteriormente, o café seria associado aos movimentos surrealista e existencialista, consolidando sua imagem como um dos grandes cafés literários da Europa. Conhecer o Les Deux Magots era participar de uma tradição cultural que ajudou a construir o mito de Paris como capital das ideias.
Sartre, Simone de Beauvoir e tantos outros
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir foram alguns dos frequentadores mais conhecidos do Les Deux Magots. Suas presenças ajudaram a transformar Saint-Germain-des-Prés em um dos centros do existencialismo no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Ernest Hemingway, Pablo Picasso e muitos outros escritores e artistas também estiveram ligados ao café em diferentes momentos. Ideias literárias, filosóficas e artísticas nasceram ou foram debatidas em torno de suas mesas. Durante nossa visita, paramos para fazer algo essencialmente parisiense: sentar, conversar e observar o movimento. Café, chocolate e conhaque completaram aquele momento, permitindo que aproveitássemos o ambiente sem pressa.
Paris iluminada durante a noite
Depois de conhecermos os dois cafés históricos, continuamos nosso passeio de carro com Sebastião e Cristina. Paris assumia uma atmosfera ainda mais encantadora com a iluminação noturna. Passamos pela Catedral de Notre-Dame, pelo Quartier Latin, pelos edifícios da Universidade Sorbonne, pelo Centro Georges Pompidou, pela Ópera de Paris, pela Torre Saint-Jacques e pela elegante Place Vendôme. Cada lugar parecia anunciar um novo capítulo da história francesa. Ainda estávamos nos primeiros dias da viagem, mas já percebíamos que Paris não poderia ser conhecida apenas por meio de uma lista de atrações. A cidade precisava ser vivida, observada e compreendida em suas diferentes camadas.
Memórias que atravessam o tempo
Aquele dia permaneceu em nossa memória porque combinou alguns dos elementos que mais valorizamos em uma viagem: história, cultura, gastronomia, arquitetura e boas companhias. Conhecer o Le Procope e o Les Deux Magots não significou apenas visitar dois estabelecimentos famosos. Representou aproximar-se de personagens e ideias que influenciaram a literatura, a filosofia e a política mundial. Mais de três décadas depois, ainda guardamos a emoção daqueles primeiros passeios por Paris. As lembranças confirmam que os contatos iniciais com uma cidade especial permanecem conosco para sempre, sobretudo quando temos o privilégio de descobri-la ao lado de pessoas capazes de revelar suas histórias e seus segredos.
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