04 de agosto de 2015
Saímos pela manhã para um passeio por Kigali, a capital de Ruanda. A principal atração da cidade é o Memorial do Genocídio. O Museu foi construído com o objetivo de preservar a memória do mais dramático episódio da história do país, e uma das maiores tragédias da história recente do Mundo.
A visita ao Memorial nos leva a uma série de salas onde são projetados filmes, acompanhados de fotografias e cartazes, que contam a história de Ruanda, os precedentes que levaram à deflagração do genocídio, e registram os momentos de terror que o país viveu.
Existem filmes, com relatos dramáticos de sobreviventes, e outras salas com objetos que testemunharam o massacre praticado pelos hutus. É impactante também, a visita à sala do ossuário, onde ossos e caveiras, fraturadas pelos golpes de facão e enxada, estão expostos para que a história não seja esquecida jamais.
Quando as potências europeias dominaram a África a partir do século XVIII, mas sobretudo no século XIX, desrespeitaram as fronteiras territoriais das tribos africanas. Separaram tribos, a partir de fronteiras que foram criadas sob interesse e poder dos países europeus, ao mesmo tempo em que, reuniram nos mesmos territórios, tribos rivais. Foi o que aconteceu nesse “miolo” da África, formado por Ruanda, Burundi e Uganda, onde os Tutsis e os Hutus, inimigos ancestrais, que tinham os seus próprios territórios e respeitavam mutualmente as suas próprias fronteiras, foram obrigados a conviver num mesmo espaço, sob o domínio do colonizador.
Os belgas, que chegaram a Ruanda em 1923, levaram educação, melhorias nas condições de saúde e infraestrutura. Elegeram os Tutsis como seus aliados e a eles foram dadas as melhores oportunidades, como acesso a saúde, educação e, aos melhores empregos. Tomaram partido da rivalidade entre os dois grupos e mantiveram os Hutus em condições desfavoráveis, sem acesso a educação e com as piores tarefas, na relação de emprego.
Em 1962 veio a independência e o país passou a ser governado por Grégoire Kayibanda, um líder hutu, repressivo e centralizador. Segundo Kayibanda: “Hutus e Tutsis são duas nações em um único Estado. Duas nações que não têm relações ou simpatia, que ignoram seus hábitos, pensamentos e sentimentos como se fossem habitantes de planetas distintos.”
Os tutsis são originários da região do Sahel, ao sul do Saara, descendem de tribos do Sudão e da Etiópia, são altos e magros e isso os diferencia dos hutus que descendem dos bantos e de tribos do centro sul da África. São mais baixos e fortes.
O ódio entre os dois grupos aumentou com os hutus no poder. No início dos anos 90, a revista Kangura publicou Os Dez Mandamentos Hutus. Um deles era que qualquer hutu que tivesse negócios ou amizade com tutsis era considerado traidor. A propaganda de ódio usava as rádios e TV’s para comunicações de massa.
Os grupos extremistas estavam identificando todos os tutsis de Kigali para um plano de extermínio de 1000 pessoas a cada 20 minutos. O presidente tinha perdido o controle. Algo grande estava sendo tramado. No dia 6 de abril de 1994, às 21:15h, estradas foram bloqueadas, casas começaram a ser invadidas e o massacre começou. A lista de tutsis marcados para morrer tinha sido preparada com antecedência.
As milícias armadas se espalharam por Kigali, bloquearam as ruas para identificar e matar os tutsis. Usavam facões, porretes, armas ou qualquer outra ferramenta disponível. Aqueles que tentavam passar pelos bloqueios eram humilhados, espancados, mutilados, assassinados e atirados à beira da estrada.
O genocídio foi algo monstruoso. Mulheres e crianças eram o principal alvo. O estupro era usado como arma de guerra. Mulheres hutus casadas com tutsis eram estupradas como punição. Genocidas torturavam suas vítimas antes de matá-las. Tutsis eram jogados vivos em valas e então apedrejadas até a morte.
Trezentos mil órfãos. Muitas famílias foram dizimadas. Ruas cheias de corpos com cachorros comendo a carne podre de seus próprios donos. O país cheirava à morte. RUANDA ESTAVA DESTRUÍDA.
Foram 100 dias de insanidade coletiva e terror, com cerca de um milhão de assassinatos brutais, a senha para o ataque aos tutsis era: “cortem as árvores altas”, numa alusão à estatura dessa etnia. Muitos deles tiveram os pés amputados numa forma de crueldade praticada por hutus, para que ficassem ambos, do mesmo tamanho.
Hoje, Kigali voltou a viver. É uma cidade relativamente organizada, limpa, e cresce muito rapidamente. Os sinais de prosperidade e de recuperação do país estão por todos os lados.

