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Uma breve história de Cuba

21 de agosto de 2019

Os Piratas do Caribe

A Ilha de Cuba foi descoberta por Cristóvão Colombo em 28 de outubro de 1492, na sua primeira viagem ao Novo Mundo. Colombo voltou a Cuba em algumas das suas outras viagens. Anexou a Ilha como território espanhol, dominando os nativos que viviam por aí. Nos anos seguintes, vários povoados foram fundados e os índios gradativamente dizimados, por guerras, trabalho forçado, mas sobretudo por doenças contra as quais não tinham imunidade.

Cristóvão Colombo

Cuba não tinha ouro nem prata, o que mais interessava aos espanhóis. Passou a ser importante pela sua localização geográfica, na entrada do Golfo do México. Cuba fecha o Golfo. É o “portão” do Golfo do México. Quando os espanhóis conquistaram o México e outras localidades na América Central, onde, aí si, encontraram muito ouro e prata, começaram transportar esses minerais preciosos para a Espanha. Cuba se tornou estratégico, pois era onde os galeões se reunião numa última parada de reabastecimento antes de cruzar o Oceano Atlântico.

A localização estratégica de Cuba

Havana era o porto mais seguro e por isso foi a cidade que mais cresceu. Virou alvo preferencial de piratas e corsários, bancados pelos reis da Inglaterra, França e Holanda, na segunda metade do século XVI. Como esses países não queriam declarar guerra à Espanha, bancavam os piratas para que eles roubassem os tesouros espanhóis e depois recebiam parte da carga roubada. Havana foi atacada e saqueada várias vezes pelos maiores piratas da época, por isso foi se tornando uma cidade bastante fortificada e passou a ser a capital de Cuba.

Um dos vários fortes coloniais de Havana

Cana-de-açúcar e tabaco

Para a Espanha não perder Cuba para a política expansionista da Inglaterra, França e Holanda, passou a estimular a ocupação do território, que não tinha ouro, com a cultura da cana-de-açúcar e do tabaco. Duas riquezas que poderiam justificar a colonização. As lavouras de “plantation” e a dizimação dos indígenas, levaram os espanhóis à busca de escravos na África.

Cana de açúcar

Com a abertura do comércio de Cuba com as colônias inglesas na América do Norte, o intenso tráfico de escravos e as plantações de cana e tabaco, Havana se tornou uma cidade rica e próspera com uma urbanização rápida, marcada por grandes palácios e um casario colonial impecável. Muito dessa riqueza já pertencia a uma população nascida em Cuba, porém de ascendência espanhola.

Arquitetura colonial em Havana

Esses novos cubanos ricos fizeram surgir um sentimento nacionalista e uma identidade nacional cubana que começou a clamar pela independência da Espanha. A Espanha começou a perder as colônias que tinha na América e isso fortaleceu os movimentos pela Independência de Cuba.

A independência de Cuba

A população da ilha aumentou muito no final do século XVIII e início do século XIX. Mais de um milhão de escravos foram levados para Cuba, que passaram a representar mais da metade da população local. O primeiro movimento claro pela independência veio com o rico Senhor de Engenho, Carlos Manoel Céspedes, que libertou os seus escravos em 1868, pediu a abolição da escravatura, convocou os cubanos a se rebelarem contra o domínio espanhol e isso se tornou o estopim para as guerras da independência. Essa guerra durou dez anos, mas os rebeldes perderam.

Imagem da Guerra dos Dez Anos em Cuba

A partir de 1892, as batalhas pela independência foram retomadas sob a liderança do intelectual cubano José Martí, que estava exilado nos Estados Unidos de onde fundou o Partido Revolucionário Cubano, e voltou a Cuba para organizar a nova luta. Desta vez os revolucionários estavam quase vencendo, até porque, Cuba era a única colônia espanhola restante na América.

Estátua dedicada a José Martí no centro de Havana

Em 1898 aconteceu um fato inusitado. O cruzador americano Maine, estava ancorado na Baía de Havana, supostamente para proteger os cidadãos americanos que viviam em Cuba, quando explodiu misteriosamente matando 250 marinheiros americanos. Os Estados Unidos responsabilizaram a Espanha e entraram na guerra pra valer. Em 3 de julho de 1898 a marinha americana derrotou a frota espanhola. Os Estados Unidos participaram do acordo de paz que pôs fim à colonização espanhola na América e passou a ter uma forte influência sobre Cuba.

O Cruzador Maine

Em 1901 o primeiro presidente cubano foi eleito, mas a forte dependência e intervenção política dos Estados Unidos alimentaram o sentimento e discurso de que o país ainda não havia conquistado a sua independência.

As ditaduras cubanas

A mono economia da cana-de-açúcar aumentou as desigualdades sociais no país. Sucessivas ditaduras violentas e tiranas como a do Presidente Gerardo Machado alimentaram o sentimento de descontentamento em relação aos governos cubanos.

Gerardo Machado

Fulgêncio Batista que tinha sido presidente na década de 40 quando fez várias reformas sociais e de cunho significativo, voltou ao poder em 1952 através de um golpe de Estado. Esse novo governo de Batista, apoiado pelos Estados Unidos, foi marcado pela repressão às lutas estudantis, que foram severamente reprimidas. A desigualdade social aumentava e o país passou a ser um grande “play ground” para os americanos ricos que costumavam ir a Cuba para se divertir nos cassinos e casas de prostituição construídos pelos gangsters americanos como forma de lavagem de dinheiro.

Fulgêncio Batista

Nesse “barril de pólvora” surgiu a liderança estudantil do jovem advogado Fidel Castro que passou a denunciar a ilegitimidade do governo de Batista. Fidel liderou a tentativa de invasão do Quartel General do Exército de Moncada em Santiago. Ele foi um dos poucos sobreviventes da tentativa fracassada. Foi preso, condenado e mais tarde anistiado. Seguiu para o exílio no México, onde passou a organizar e liderar o surgimento de uma força revolucionária.

A tentativa fracassada da tomada do Quartel General do Exército de Moncada em Santiago

A Revolução cubana

No México, Fidel Castro conheceu o jovem médico argentino, Ernesto “Che” Guevara, que se incorporou ao grupo revolucionário e de lá organizaram a luta armada que tomou o poder em Cuba em 1º de janeiro de 1959, após vários anos de luta armada.

Escultura de Fidel Castro no Museu da Revolução

Em 25 de novembro de 1956, um grupo de 81 revolucionários guerrilheiros partiram do México a bordo de um pequeno barco, o “Granma”. Três dias depois de aportarem na Ilha, foram atacados pelas tropas do governo e poucos sobreviveram, dentre eles, os principais líderes do movimento: Fidel Castro, Che Guevara, Raul Castro e Camilo Cienfuegos. Os sobreviventes fugiram para as montanhas da Sierra Maestra, de onde passaram a organizar a guerrilha. A pobreza, desigualdade social e repressão da ditadura Batista foram a pólvora do movimento revolucionário.

Fidel, Camilo e Che. Escultura no Museu da Revolução.

Dois anos depois de iniciado o movimento, o exército guerrilheiro, formado por agricultores, estudantes e desertores do exército, derrotou as tropas de Batista, que fugiu para a República Dominicana em 1º de janeiro de 1959, quando Che Guevara e Camilo Cienfuegos entram em Havana. Logo depois Fidel conquistou Santiago de Cuba e a revolução se consolidou.

Che Guevara e Camilo Cienfuegos no Museu da Revolução

Um dos primeiros atos do governo revolucionário foi uma intensa campanha pela erradicação do analfabetismo iniciada em 1961, quando o governo convocou milhares de estudantes para irem às populações rurais com o objetivo de alfabetizar a população. Em pouco tempo o analfabetismo foi considerado erradicado. O segundo passo foi incrementar a Reforma Agrária, com a desapropriação das terras no campo. O confisco dos latifúndios que pertenciam a fazendeiros americanos marcou o início das hostilidades entre Cuba e Estados Unidos.

Americanos e cubanos fugiram, deixando todos os seus bens para trás.

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Cuba e a Guerra Fria

Em agosto de 1960, os Estados Unidos declararam um boicote comercial a Cuba. A nova Cuba não nasceu comunista, mas a crescente hostilidade entre os dois países a jogou no “colo” da URSS e isso aumentou as tensões da ‘Guerra Fria”.

Em abril de 1961, um grupo de contrarrevolucionários cubanos, que viviam exilados nos Estados Unidos, juntamente com mercenários treinados pela CIA, tentaram invadir a Ilha, num local conhecido como Baía dos Porcos. A tentativa foi fracassada, pois o governo de Cuba soube da movimentação antes dela ocorrer e conseguiu rechaçar a tentativa de invasão.

Trator improvisado como tanque de guerra, na resistência da Baía dos Porcos

O embargo comercial americano passou a contar com a adesão da maioria dos países das Américas e isso aproximou Cuba cada vez mais dos países comunistas e em especial da URSS, que convenceu Cuba a instalar mísseis nucleares na Ilha. Os Estados Unidos fizeram um bloqueio naval total nos entornos da Ilha de Cuba e o clima ficou tenso, até que os soviéticos concordaram em retirar os mísseis e levá-los de volta para a União Soviética.

Mapa do bloqueio naval dos Estados Unidos em Cuba

Cuba era sustentada pela URSS, que comprava açúcar a preço superfaturado e vendia petróleo a preço subfaturado, além de disponibilizar assistência técnica e apoio militar. As dificuldades econômicas do país só aumentavam e muitos cubanos fugiram para os Estados Unidos.

Tesouro arquitetônico degradado em Havana Velha

Com a Queda do Muro de Berlim em 1989, o fim da URSS e a derrocada do comunismo na Europa Oriental a situação de Cuba piorou ainda mais. O fim da ajuda soviética aumentou a pobreza no país e as políticas de austeridade impostas pelo governo passaram a ser cada vez maiores.

Sinais da pobreza em Havana

A ditadura de Fidel Castro

A falta de combustível fez com que vários setores da indústria fossem desativados. Importações e exportações reduzidas, corte sistemático de energia e água além de uma redução na cota de alimentação disponível para a população. O salário foi reduzido a algo em torno de U$30,00 por mês. Os russos, técnicos e militares, foram embora. A crise econômica piorou muito até 1994.

Propaganda política do governo

A partir do início do século XXI, o governo passou a encorajar investimentos estrangeiros no país, porém com alcance limitado e muita burocracia. A partir do ano 2000, o turismo surgiu como uma alternativa, mas a crise continuou forte.

Caixa de charuto com a foto de Fidel

Fidel governou por 49 anos. De 1959 a 2008, quando doente, passou o poder para o seu irmão e também líder revolucionário, Raul Castro. Fidel foi um ditador tirano. Fez o mesmo que os ditadores que criticou e combateu. Perseguiu, torturou, deu sumiço e mandou matar adversários políticos, ou simplesmente aqueles que se posicionavam contra o regime. Doutrinou, exilou e reprimiu a população em todos os aspectos.

Os líderes da Revolução ainda são homenageados em vários lugares de Cuba

Durante a ditadura de Fidel, até mesmo a liberdade religiosa era comprometida em Cuba. Os confrontos que teve com a Igreja Católica reprimia os cultos cristãos. Ter a imagem de Jesus ou Maria no interior de uma casa poderia ser compreendido como um ato de subversão.

Símbolos da “santeria”, nas ruas de Havana

A repressão aos santos católicos aumentou em muito os cultos afros nas famílias cubanas, que passaram a usar o sincretismo religioso através da “santeria” como forma de manter as práticas religiosas.

Oferendas intocáveis nas ruas de Havana

Raul fez algumas reformas sociais e econômicas e flertou com o início de uma abertura política, libertando alguns presos políticos. Demitiu 500 mil trabalhadores estatais e incentivou a abertura de pequenos negócios privados, sobretudo na área de serviços.

A imagem de Che Guevara está em vários suvenires de Cuba

A partir de 2014 houve uma tentativa de reaproximação com o governo americano de Barack Obama, mas que foi revogado pelo governo Donald Trump. O país poderá sofrer fortes mudanças sociais, políticas e econômicas no futuro próximo, pois continua isolado num mundo que não existe mais.

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