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Os monges mumificados de Sakata

31 de março de 2026

A costa noroeste da Ilha de Honshu

Estávamos navegando pela costa oeste da Ilha de Honshu, a principal ilha do Japão, concentrando cerca de 60% do território nacional e a maior parte da população, além de cidades como Tóquio, Osaka e Kyoto. Ao avançar pela costa voltada para o Mar do Japão, o cenário possui paisagens mais rurais, menor densidade urbana e forte presença de natureza. Tradições, festivais locais e um ritmo de vida mais tranquilo contrastam com o dinamismo das grandes metrópoles do leste da ilha. Pela manhã, aportamos em Sakata, cidade que se desenvolveu a partir de seu porto. Sakata possui hoje, aproximadamente 100 mil habitantes. Durante o período Edo, Sakata teve papel estratégico como um dos principais centros de distribuição de arroz do norte do Japão, conectando a produção agrícola do interior às rotas marítimas. O porto facilitava o escoamento da produção e integrava a região a outros centros comerciais do país.

Navegando pela costa noroeste da Ilha de Honshu

Aportamos em Sakata

A província de Sakata é marcada por um relevo que combina áreas montanhosas e planícies férteis, favorecendo a agricultura, especialmente o cultivo de arroz e frutas. O clima é mais frio em comparação com o centro do país, com invernos rigorosos e forte presença de neve. A posição costeira, aliada à proximidade com áreas montanhosas, influencia diretamente o clima, que é mais frio e úmido, com invernos rigorosos e presença frequente de neve. Durante boa parte do ano, as temperaturas são mais baixas do que nas regiões centrais do país.

Aportamos em Sakata

A cultura do arroz e a produção de saquê

A cultura do arroz é fundamental para a economia e para a identidade local. As planícies férteis e a disponibilidade de água favorecem o cultivo, que historicamente sustentou o desenvolvimento da cidade como importante entreposto durante o período Edo. Esse mesmo arroz de qualidade é a base para a produção de saquê, uma das especialidades da região. A combinação entre matéria-prima selecionada, água pura e clima frio contribui para um processo de fermentação mais controlado, resultando em bebidas equilibradas. Ao longo da visita, fica clara a ligação entre agricultura, tradição e produção local, com pequenas unidades de produção mantendo métodos transmitidos ao longo de gerações.

A cultura do arroz

Os grandes “tesouros” do Templo Budista de Sakata

Visitamos um interessante templo budista na região de Sakata, onde a prática religiosa continua integrada ao cotidiano local. Os grandes “tesouros” do Templo Budista de Sakata, são os Monges Mumificados. Essa região norte do Japão concentra a maior parte dos casos conhecidos de monges mumificados. Estima-se que existam aproximadamente 20 exemplos preservados, distribuídos principalmente na província de Yamagata. Em Sakata e arredores, há alguns desses casos, mantidos em templos e reverenciados como figuras de devoção, o que reforça a importância local dessa tradição. Nesse Templo que visitamos existiam dois. São impressionantes. O Templo é muito pequeno e simples, com áreas de oração, altares e elementos tradicionais do budismo japonês. O ambiente mais silencioso e introspectivo, diferente dos templos mais turísticos.

Templo Budista de Sakata

Os monges mumificados de Yamagata

Os “monges mumificados” estão associados à prática do sokushinbutsu, desenvolvida por monges budistas nessa região, no norte do Japão, entre os séculos XVII e XIX. Fazia parte de uma tradição em que monges buscavam evoluir espiritualmente por meio de muita disciplina, renunciando aos prazeres e confortos do corpo. Essa era uma tradição ascética, um modo de vida baseado em disciplina, simplicidade e renúncia. Nela, a pessoa renuncia a confortos, prazeres e excessos materiais para focar no desenvolvimento espiritual, mental ou moral. Incluia práticas como jejum, meditação, isolamento e controle rigoroso do corpo e dos desejos. Os monges passavam anos em preparação, seguindo dietas rigorosas e processos de isolamento. No contexto do budismo japonês, isso envolvia controle rigoroso do corpo e da mente, com restrições alimentares e isolamento prolongado. Os poucos casos conhecidos estão concentrados principalmente no norte do país, na região de Yamagata.

Santuário xintoísta em Yamagata

Sokushinbutsu: o processo de auto mumificação dos monges

Para o sokushinbutsu, eram construídas câmaras no subsolo, próximas aos templos, em locais isolados e com solo adequado para escavação. Tratava-se de pequenas estruturas de madeira ou pedra, dimensionadas para que o monge permanecesse sentado em posição de meditação. O acesso era feito por uma abertura superior ou lateral, que era selada após o início do retiro final. O monge entrava voluntariamente, levando apenas um sino, para sinalizar que ainda estava vivo. Com o passar dos dias, o som cessava, indicando sua morte. O tempo variava, mas geralmente ocorria após alguns dias ou semanas. Após o falecimento, a câmara permanecia fechada por cerca de mil dias (aproximadamente três anos), quando era reaberta para verificar se havia ocorrido a mumificação natural. Quando o corpo se encontrava preservado, o monge era então retirado, vestido com trajes cerimoniais e colocado em exibição no templo, sendo reverenciado como exemplo de disciplina e devoção espiritual.

Monge mumificado. Imagem feita com IA

Museu Honma: a coleção de bonecos tradicionais

Seguimos para o Museu de Arte Honma, possui pinturas e objetos históricos. Chamaram atenção os bonecos tradicionais expostos em algumas salas. Essas peças fazem parte da cultura japonesa e refletem diferentes momentos e significados, muitas vezes ligados a celebrações, proteção e representação simbólica. Os bonecos apresentam riqueza de detalhes nos trajes, expressões e materiais utilizados, revelando técnicas artesanais preservadas ao longo do tempo. Durante a visita, foi possível perceber como essas peças dialogam com a história local e com aspectos mais amplos da cultura japonesa, ampliando a experiência para além das artes plásticas convencionais.

Museu Honma

Os Jardins do Museu Honma

Saímos do Museu de Arte Honma e caminhamos pelos jardins tradicionais que fazem parte do conjunto do museu. O espaço é organizado com lagos, pontes, caminhos sinuosos e vegetação cuidadosamente distribuída, criando diferentes pontos de observação ao longo do percurso. A composição segue princípios clássicos do paisagismo japonês, buscando equilíbrio entre elementos naturais e intervenções humanas. Durante a visita, percebemos como cada detalhe, pedras, árvores e água, contribui para a construção do ambiente. O jardim funciona como uma extensão do museu, complementando a experiência com um espaço mais contemplativo e integrado à natureza.

Os Jardins do Museu Honma

A influência econômica e cultural da família Honma em Sakata

A Família Honma teve papel central no desenvolvimento de Sakata, especialmente durante o período Edo. Atuando como grandes comerciantes de arroz, acumularam riqueza e influência em uma época em que o produto era base da economia japonesa. A atuação da família não se limitou ao comércio, envolvendo também apoio a atividades culturais, artísticas e à organização da cidade. Parte desse legado pode ser observado no Museu de Arte Honma e em outras propriedades históricas associadas ao grupo. A trajetória da família ajuda a entender como Sakata se consolidou como um importante centro regional, conectando produção agrícola, comércio marítimo e desenvolvimento urbano.

Presépio no Museu Honma

O saquê em Sakata

Seguimos para uma fábrica de saquê, onde pudemos acompanhar a produção, baseada na fermentação do arroz polido com o uso do kōji, um fungo que transforma o amido em açúcar. O processo combina técnicas tradicionais com controle rigoroso de temperatura, favorecido pelo clima frio da região e pela qualidade da água. Após entender as etapas de produção, participamos de uma degustação, onde foi possível comparar diferentes estilos, variando em aroma, textura e intensidade. A experiência ajuda a perceber nuances que vão além do consumo habitual, conectando o produto ao território e à cultura local. A produção de saquê em Sakata está diretamente ligada às condições naturais da região. O clima frio do norte do Japão favorece o controle da fermentação, enquanto a água pura, proveniente do degelo das montanhas próximas, é considerada ideal para o processo.

Visitamos uma fábrica de saquê em Sakata
Degustamos saquê em Sakata

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