Os monges mumificados de Sakata
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- joaquimnery
- 9 de maio de 2026
- Ásia Japão Super Destaque
31 de março de 2026
A costa noroeste da Ilha de Honshu
Estávamos navegando pela costa oeste da Ilha de Honshu, a principal ilha do Japão, concentrando cerca de 60% do território nacional e a maior parte da população, além de cidades como Tóquio, Osaka e Kyoto. Ao avançar pela costa voltada para o Mar do Japão, o cenário possui paisagens mais rurais, menor densidade urbana e forte presença de natureza. Tradições, festivais locais e um ritmo de vida mais tranquilo contrastam com o dinamismo das grandes metrópoles do leste da ilha. Pela manhã, aportamos em Sakata, cidade que se desenvolveu a partir de seu porto. Sakata possui hoje, aproximadamente 100 mil habitantes. Durante o período Edo, Sakata teve papel estratégico como um dos principais centros de distribuição de arroz do norte do Japão, conectando a produção agrícola do interior às rotas marítimas. O porto facilitava o escoamento da produção e integrava a região a outros centros comerciais do país.

Aportamos em Sakata
A província de Sakata é marcada por um relevo que combina áreas montanhosas e planícies férteis, favorecendo a agricultura, especialmente o cultivo de arroz e frutas. O clima é mais frio em comparação com o centro do país, com invernos rigorosos e forte presença de neve. A posição costeira, aliada à proximidade com áreas montanhosas, influencia diretamente o clima, que é mais frio e úmido, com invernos rigorosos e presença frequente de neve. Durante boa parte do ano, as temperaturas são mais baixas do que nas regiões centrais do país.

A cultura do arroz e a produção de saquê
A cultura do arroz é fundamental para a economia e para a identidade local. As planícies férteis e a disponibilidade de água favorecem o cultivo, que historicamente sustentou o desenvolvimento da cidade como importante entreposto durante o período Edo. Esse mesmo arroz de qualidade é a base para a produção de saquê, uma das especialidades da região. A combinação entre matéria-prima selecionada, água pura e clima frio contribui para um processo de fermentação mais controlado, resultando em bebidas equilibradas. Ao longo da visita, fica clara a ligação entre agricultura, tradição e produção local, com pequenas unidades de produção mantendo métodos transmitidos ao longo de gerações.

Os grandes “tesouros” do Templo Budista de Sakata
Visitamos um interessante templo budista na região de Sakata, onde a prática religiosa continua integrada ao cotidiano local. Os grandes “tesouros” do Templo Budista de Sakata, são os Monges Mumificados. Essa região norte do Japão concentra a maior parte dos casos conhecidos de monges mumificados. Estima-se que existam aproximadamente 20 exemplos preservados, distribuídos principalmente na província de Yamagata. Em Sakata e arredores, há alguns desses casos, mantidos em templos e reverenciados como figuras de devoção, o que reforça a importância local dessa tradição. Nesse Templo que visitamos existiam dois. São impressionantes. O Templo é muito pequeno e simples, com áreas de oração, altares e elementos tradicionais do budismo japonês. O ambiente mais silencioso e introspectivo, diferente dos templos mais turísticos.

Os monges mumificados de Yamagata
Os “monges mumificados” estão associados à prática do sokushinbutsu, desenvolvida por monges budistas nessa região, no norte do Japão, entre os séculos XVII e XIX. Fazia parte de uma tradição em que monges buscavam evoluir espiritualmente por meio de muita disciplina, renunciando aos prazeres e confortos do corpo. Essa era uma tradição ascética, um modo de vida baseado em disciplina, simplicidade e renúncia. Nela, a pessoa renuncia a confortos, prazeres e excessos materiais para focar no desenvolvimento espiritual, mental ou moral. Incluia práticas como jejum, meditação, isolamento e controle rigoroso do corpo e dos desejos. Os monges passavam anos em preparação, seguindo dietas rigorosas e processos de isolamento. No contexto do budismo japonês, isso envolvia controle rigoroso do corpo e da mente, com restrições alimentares e isolamento prolongado. Os poucos casos conhecidos estão concentrados principalmente no norte do país, na região de Yamagata.

Sokushinbutsu: o processo de auto mumificação dos monges
Para o sokushinbutsu, eram construídas câmaras no subsolo, próximas aos templos, em locais isolados e com solo adequado para escavação. Tratava-se de pequenas estruturas de madeira ou pedra, dimensionadas para que o monge permanecesse sentado em posição de meditação. O acesso era feito por uma abertura superior ou lateral, que era selada após o início do retiro final. O monge entrava voluntariamente, levando apenas um sino, para sinalizar que ainda estava vivo. Com o passar dos dias, o som cessava, indicando sua morte. O tempo variava, mas geralmente ocorria após alguns dias ou semanas. Após o falecimento, a câmara permanecia fechada por cerca de mil dias (aproximadamente três anos), quando era reaberta para verificar se havia ocorrido a mumificação natural. Quando o corpo se encontrava preservado, o monge era então retirado, vestido com trajes cerimoniais e colocado em exibição no templo, sendo reverenciado como exemplo de disciplina e devoção espiritual.

Museu Honma: a coleção de bonecos tradicionais
Seguimos para o Museu de Arte Honma, possui pinturas e objetos históricos. Chamaram atenção os bonecos tradicionais expostos em algumas salas. Essas peças fazem parte da cultura japonesa e refletem diferentes momentos e significados, muitas vezes ligados a celebrações, proteção e representação simbólica. Os bonecos apresentam riqueza de detalhes nos trajes, expressões e materiais utilizados, revelando técnicas artesanais preservadas ao longo do tempo. Durante a visita, foi possível perceber como essas peças dialogam com a história local e com aspectos mais amplos da cultura japonesa, ampliando a experiência para além das artes plásticas convencionais.

Os Jardins do Museu Honma
Saímos do Museu de Arte Honma e caminhamos pelos jardins tradicionais que fazem parte do conjunto do museu. O espaço é organizado com lagos, pontes, caminhos sinuosos e vegetação cuidadosamente distribuída, criando diferentes pontos de observação ao longo do percurso. A composição segue princípios clássicos do paisagismo japonês, buscando equilíbrio entre elementos naturais e intervenções humanas. Durante a visita, percebemos como cada detalhe, pedras, árvores e água, contribui para a construção do ambiente. O jardim funciona como uma extensão do museu, complementando a experiência com um espaço mais contemplativo e integrado à natureza.

A influência econômica e cultural da família Honma em Sakata
A Família Honma teve papel central no desenvolvimento de Sakata, especialmente durante o período Edo. Atuando como grandes comerciantes de arroz, acumularam riqueza e influência em uma época em que o produto era base da economia japonesa. A atuação da família não se limitou ao comércio, envolvendo também apoio a atividades culturais, artísticas e à organização da cidade. Parte desse legado pode ser observado no Museu de Arte Honma e em outras propriedades históricas associadas ao grupo. A trajetória da família ajuda a entender como Sakata se consolidou como um importante centro regional, conectando produção agrícola, comércio marítimo e desenvolvimento urbano.

O saquê em Sakata
Seguimos para uma fábrica de saquê, onde pudemos acompanhar a produção, baseada na fermentação do arroz polido com o uso do kōji, um fungo que transforma o amido em açúcar. O processo combina técnicas tradicionais com controle rigoroso de temperatura, favorecido pelo clima frio da região e pela qualidade da água. Após entender as etapas de produção, participamos de uma degustação, onde foi possível comparar diferentes estilos, variando em aroma, textura e intensidade. A experiência ajuda a perceber nuances que vão além do consumo habitual, conectando o produto ao território e à cultura local. A produção de saquê em Sakata está diretamente ligada às condições naturais da região. O clima frio do norte do Japão favorece o controle da fermentação, enquanto a água pura, proveniente do degelo das montanhas próximas, é considerada ideal para o processo.


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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


