DMZ, a Zona Desmilitarizada da Coreia – Parte 2
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- joaquimnery
- 5 de junho de 2026
- Ásia Coreia do Sul Super Destaque
11 de abril de 2026
DMZ: deslocamento em tour oficial
Seguimos de ônibus em um tour oficial até a Zona Desmilitarizada da Coreia, partindo de Seul. O trajeto é organizado e controlado, com pontos de verificação ao longo do caminho, onde documentos são conferidos antes da entrada na área restrita. O guia da DMZ contextualiza a divisão da Coreia e os desdobramentos da Guerra da Coreia, preparando a visita para além do aspecto visual. O deslocamento segue por áreas monitoradas, com paradas previamente definidas, como observatórios e pontos históricos. A experiência reforça o caráter singular da região, onde turismo e geopolítica se sobrepõem em um mesmo espaço, sob regras e protocolos específicos.

Controle de passaportes nos ônibus
No caminho em direção à Zona Desmilitarizada da Coreia, o controle de passaportes ocorre ainda dentro dos ônibus do tour oficial. Em determinados pontos de verificação, militares sob comando da Coreia do Sul entram no veículo e conferem individualmente os documentos dos passageiros. O processo é rápido, mas rigoroso, garantindo que todos estejam devidamente registrados e autorizados a acessar a área. Não há desembarque nesse momento; a checagem é feita no próprio assento, reforçando o caráter controlado da visita. Esse procedimento evidencia que, embora seja uma atividade turística, a entrada na DMZ ocorre sob protocolos de segurança típicos de uma zona militar ativa, ligada diretamente ao contexto da divisão da Coreia.

Famílias separadas por uma fronteira
A divisão da Coreia provocou uma das mais dramáticas consequências humanas do século XX: a separação de milhões de famílias. Pessoas que viviam na mesma cidade ou região acabaram em lados opostos da nova fronteira, muitas vezes sem qualquer possibilidade de comunicação durante décadas. Apenas a partir dos anos 2000 ocorreram programas limitados de reencontro, organizados em momentos de aproximação política entre os dois governos. Mesmo assim, os encontros são raros e muitos dos inscritos jamais tiveram a oportunidade de rever seus parentes antes de falecer. A questão das famílias divididas permanece como um dos aspectos mais emocionais e simbólicos da história coreana.

Travessias clandestinas entre as Coreias
O fluxo de pessoas que atravessam clandestinamente a Zona Desmilitarizada da Coreia é extremamente baixo, praticamente inexistente. A fronteira entre Coreia do Norte e Coreia do Sul é uma das mais vigiadas do mundo, com cercas, minas, sensores e presença militar constante. Na prática as travessias diretas pela DMZ são raríssimas e altamente perigosas. Quando ocorrem, geralmente envolvem militares ou casos isolados. A maioria das pessoas que deixam a Coreia do Norte não utiliza essa fronteira por saberem do risco e da vigilância constante. Quando acontecem fugas, o caminho mais comum é indireto: atravessam para a China e, a partir daí, seguem por rotas complexas até chegar à Coreia do Sul ou a outros países. Assim, ao contrário de outras fronteiras no mundo, não existe um fluxo significativo de migração clandestina direta entre as duas Coreias, principalmente devido ao alto nível de controle e risco envolvido.

A JSA e a Ponte do Não Retorno
No interior da DMZ encontra-se a Joint Security Area (JSA), em Panmunjom, o único ponto onde militares das duas Coreias permanecem frente a frente. É ali que ficam os famosos edifícios azuis utilizados para negociações oficiais. Dentro dessas salas, a linha de demarcação atravessa o centro da mesa, simbolizando a proximidade física e a distância política entre os dois países. Próxima dali está a histórica Ponte do Não Retorno, utilizada na troca de prisioneiros após o armistício de 1953. Quem atravessava a ponte precisava escolher definitivamente entre retornar ao seu país de origem ou permanecer do outro lado, sem possibilidade de voltar atrás.

Kaesong: um experimento de cooperação entre as duas Coreias
Poucos lugares simbolizam tão bem a complexidade da relação entre Coreia do Norte e Coreia do Sul quanto o Complexo Industrial de Kaesong. Localizado em território norte-coreano, próximo à fronteira, o projeto foi criado em 2004 como uma iniciativa de cooperação econômica entre os dois países. Empresas sul-coreanas instalaram fábricas na região, enquanto milhares de trabalhadores norte-coreanos atuavam na produção. A proposta era combinar capital e tecnologia do Sul com a mão de obra do Norte, criando um raro espaço de integração em uma península marcada por décadas de divisão. No entanto, as frequentes tensões políticas acabaram provocando sucessivas interrupções das atividades, transformando Kaesong em um símbolo tanto das possibilidades quanto das dificuldades de aproximação entre as duas Coreias.

O Terceiro Túnel de Infiltração
Entre os locais mais impressionantes da visita à DMZ está o Terceiro Túnel de Infiltração. Descoberto em 1978, ele faz parte de uma série de passagens subterrâneas escavadas pela Coreia do Norte sob a Zona Desmilitarizada. Segundo as autoridades sul-coreanas, o túnel teria sido projetado para permitir a movimentação rápida de tropas em caso de conflito. Atualmente, os visitantes podem descer por um corredor inclinado até alcançar a parte da estrutura original escavada na rocha. A experiência oferece uma dimensão concreta das tensões militares que ainda marcam a península e ajuda a compreender por que a fronteira coreana continua sendo uma das mais sensíveis do mundo. Descemos no túnel. A rampa é extensa e íngreme. A experiência não é confortável.

Daeseong-dong: a vila dentro da DMZ
A poucos quilômetros da linha de demarcação está Daeseong-dong, uma das raras comunidades habitadas dentro da Zona Desmilitarizada. Conhecida como “Freedom Village”, a pequena vila representa uma exceção em uma área dominada por restrições militares. Seus moradores vivem sob regras especiais, com controle de acesso, monitoramento constante e horários específicos para circulação. Em contrapartida, recebem incentivos do governo sul-coreano, incluindo benefícios fiscais e apoio à atividade agrícola, principal fonte de renda da comunidade. Daeseong-dong é um exemplo singular de vida cotidiana em uma das regiões geopoliticamente mais sensíveis do planeta.

Rio Imjin: fronteira natural e símbolo da divisão
O Rio Imjin (Imjingang) é um dos principais cursos d’água que atravessam a Zona Desmilitarizada da Coreia, ligando a Coreia do Norte à Coreia do Sul. Ele nasce no norte da península e segue em direção ao sul, desaguando no Rio Han, próximo a Seul. Durante a Guerra da Coreia, o rio teve importância estratégica como linha natural de defesa e movimentação de tropas. Até hoje, suas margens são fortemente monitoradas em vários trechos, com cercas e estruturas de vigilância. Além do aspecto geopolítico, o rio também se tornou um símbolo da divisão da Coreia, representando tanto separação quanto conexão entre os dois lados da fronteira.

“30 Years Lost”: a geração perdida na Coreia
A expressão “30 Years Lost” é frequentemente usada na Coreia do Sul para se referir às décadas seguintes à Guerra da Coreia, quando o país enfrentou grandes dificuldades econômicas, instabilidade política e baixo desenvolvimento. Entre os anos 1950 e início dos anos 1980, a Coreia, especialmente o Sul, passou por reconstrução lenta, regimes autoritários e limitações estruturais que atrasaram seu crescimento. Esse período é visto como uma fase de oportunidades perdidas em comparação com o avanço posterior. A partir dos anos 1980, a Coreia do Sul iniciou um rápido processo de industrialização e modernização, tornando-se uma das economias mais dinâmicas do mundo. Assim, “30 Years Lost” ajuda a explicar essa virada histórica, de um país fragilizado no pós-guerra para uma potência tecnológica e econômica nas décadas seguintes.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


