O Círio de Nazaré – Parte I
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13 de outubro de 2024
Fé, Tradição e Devoção
Finalmente chegou o grande e esperado dia do Círio de Nazaré, o evento que define a alma do povo paraense. Acontece anualmente no segundo domingo de outubro, em Belém do Pará, o Círio é muito mais do que uma procissão religiosa: é um espetáculo de fé, uma manifestação cultural e um dos maiores encontros religiosos do mundo. Quem visita a capital paraense nesse período se depara com um cenário único, onde milhões de devotos, turistas e promesseiros tomam as ruas para homenagear Nossa Senhora de Nazaré.

A maior manifestação católica do mundo
A história do Círio começou no século XVIII, quando o caboclo, Plácido José de Souza, encontrou uma pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré às margens do igarapé Murutucu, no atual bairro de Nazaré, na periferia de Belém. A história conta que ao levá-la para casa, a imagem misteriosamente retornava ao local onde fora encontrada, um fato considerado milagroso pela população. Nesse local foi construída uma capela em homenagem à santa, onde hoje existe o Santuário da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré. A devoção a Nossa Senhora de Nazaré começou em Portugal, no século XII e chegou ao Pará pela cidade de Vigia, há 100 km de Belém. O Círio de Vigia é o mais antigo do estado. Em 1793, a devoção à santa se consolidou em Belém, com a realização da primeira procissão oficial, organizada pelo então governador da Capitania do Grão-Pará. Desde então, a celebração cresceu e se tornou um dos maiores eventos católicos do mundo, reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.

O Glória
No dia anterior, sábado, tínhamos acompanhado várias procissões associadas à festa: A Procissão Fluvial, a Moto Romaria e a Procissão da Trasladação. A retirada da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, do “Glória”, o local onde a santa original fica guardada sobre o altar-mor da Basílica Santuário de Nazaré, é um momento especial dentro da celebração do Círio de Nazaré carregado de simbolismo e emoção, representando a pureza da fé e a devoção dos paraenses à santa. A descida do Glória acontece para que a imagem original de Nossa Senhora de Nazaré fique mais próxima dos fiéis.

A Santa Peregrina
Uma réplica da imagem original encontrada pelo Caboclo Plácido acompanha todas essas procissões. É a Santa Peregrina, já que a original permanece no Glória, protegida, dentro da Basílica. A trasladação leva a imagem da Santa Peregrina, da Basílica para a Catedral da Sé, na noite de sábado. No domingo, a imagem retorna para a Basílica, na grande procissão do Círio de Nazaré, que percorre aproximadamente 3,6 quilômetros pelas ruas de Belém. O trajeto tem início na Catedral Metropolitana de Belém e segue até a Basílica, sendo acompanhado por milhões de fiéis. Esse percurso, embora curto em extensão, pode durar várias horas devido à grande quantidade de devotos, ao ritmo lento da procissão e às demonstrações de fé.

A “corda” do Círio
A grandiosidade do Círio não está apenas na multidão que acompanha a procissão, mas principalmente na fé extrema dos devotos. Muitos percorrem quilômetros descalços, carregam objetos simbólicos ou participam da corda, um dos momentos mais emocionantes da celebração. A corda, com cerca de 400 metros de comprimento, é segurada por milhares de fiéis que a puxam como forma de agradecimento ou pedido de bênçãos à Virgem de Nazaré. É um dos símbolos mais marcantes da celebração. Representa a ligação dos fiéis com Nossa Senhora de Nazaré e a fé daqueles que participam da romaria. Milhares de promesseiros seguram a corda e a puxam ao longo do percurso como forma de agradecimento por graças alcançadas ou em súplica por bênçãos. Alguns cortam pedaços da corda para guardar como lembrança e testemunho da participação no Círio.


As Estações
A corda do Círio foi originalmente usada para puxar a Berlinda quando ainda era transportada por carros de boi, hoje representa a ligação dos fiéis com Nossa Senhora de Nazaré. Milhares de devotos disputam um espaço para segurá-la, como um ato de fé e gratidão pelas graças recebidas. As estações são estruturas metálicas que conectam a corda do Círio em um sistema de ganchos e aros. Servem para tracionar a corda e dar um ritmo de romaria para a Procissão. São feitas de uma liga metálica leve e resistente. São pontos estratégicos do trajeto onde a procissão faz pausas que estimulam os fiéis com orações, cânticos e palavras de ordem.

Tocar na corda é um ato de devoção e sacrifício
O significado da corda remonta às primeiras edições do Círio, quando era usada para ajudar a conduzir a berlinda com a imagem da santa pelas ruas de Belém, puxada por um carro-de-boi. Nos primeiros anos da procissão, no século XVIII, a imagem era levada em um carro de madeira ornamentado, que precisava ser puxado com a ajuda de bois e da corda. Com o passar do tempo, os bois foram retirados da procissão, mas a corda permaneceu puxada pelos fiéis, como um dos elementos mais simbólicos do evento. Com o tempo, o gesto ganhou um caráter espiritual profundo, simbolizando a conexão entre os devotos e sua padroeira. Para muitos, se aproximar e tocar na corda é um ato de devoção e sacrifício, tornando esse momento um dos mais emocionantes e disputados da procissão.

Os promesseiros
Ao longo do percurso seguem os promesseiros que são a essência do Círio. São fiéis que cumprem promessas feitas à santa, carregando cruzes, vestindo trajes especiais ou caminhando de joelhos até a Basílica de Nazaré. Suas histórias de fé e superação emocionam e inspiram, tornando o evento ainda mais significativo.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


