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Rio Arapiuns, muito mais que “O Caribe Brasileiro”

17 de outubro de 2024

A Loja Araribá em Alter do Chão

Estávamos em Alter do Chão, na margem do Rio Tapajós, no Pará. Começamos o dia visitando a Loja Araribá, no centro da vila, que possui um grande acervo e estoque de artesanato amazônico. Dá vontade de levar um pouquinho de cada coisa em exposição. É a loja de artesanatos mais importante de Alter do Chão, mas passava uma sensação de que os produtos estavam entulhados, uns sobre os outros. A loja era excelente, apesar da má distribuição dos produtos.

A Loja Araribá em Alter do Chão

O Rio Arapiuns

Depois da loja Araribá, seguimos para fazer um programa incrível no maravilhoso Rio Arapiuns, um grande afluente do Rio Tapajós, famoso pelas extensas praias de areias brancas. É um verdadeiro paraíso de águas calmas e cristalinas, cercado por praias de areias claras e comunidades ribeirinhas acolhedoras. Essa região é apelidada de “Caribe da Amazônia”. Sua paisagem intocada e biodiversidade impressionante fazem dele um refúgio natural perfeito para quem busca conexão com a floresta. O dia estava magnífico para o passeio. Águas paradas que facilitavam a navegação e que não são tão comuns ao Rio Arapiuns.

A imensidão do Rio Arapiuns

A seca severa na Amazônia

A seca severa que atingiu os rios da Amazônia em 2024 foi uma das mais drásticas já registradas, com impactos profundos para o ecossistema, comunidades ribeirinhas e a navegação fluvial. Fez com que as praias ficassem maiores e mais belas, porém não dava para comemorar por conta das causas e consequências dessas secas. A estiagem prolongada, agravada pelas mudanças climáticas e pelo fenômeno El Niño, expôs bancos de areia onde antes havia vastas extensões de água e deixou centenas de comunidades isoladas, sem acesso a alimentos, água potável e atendimento médico.

Com a seca severa na Amazônia em 2024, as praias ficaram muito mais extensas.

A Comunidade Coroca

Paramos para visitar a Comunidade de Coroca, um exemplo vibrante de harmonia entre o modo de vida tradicional e a preservação ambiental. Habitada por famílias ribeirinhas que vivem da pesca, agricultura de subsistência e do artesanato, Coroca encanta pela simplicidade, hospitalidade e riqueza cultural. O cenário natural é maravilhoso, com praias de areias brancas, águas transparentes e uma floresta exuberante ao redor. A comunidade também tem se destacado por iniciativas sustentáveis e pelo turismo de base comunitária, oferecendo aos visitantes uma imersão autêntica na vida amazônica.

A Comunidade Coroca

A navegação pelo Rio Arapiuns

O programa que envolve o Rio Arapiuns fica num local distante de Alter do Chão, mas vale muito à pena. Foram duas horas de navegação. A paisagem é espetacular e nos surpreende a cada curva do rio. O barco ficou ancorado distante da sede da comunidade, por conta da seca do rio. Mesmo assim era um mundo de água ao nosso redor.

A navegação pelo Rio Arapiuns

Agricultura familiar e turismo

O local começou a ser ocupado a partir da década de 1920, por um casal de caboclos, Manoel Santos e Maria Pereira. Hoje, possui cerca de 20 famílias que vivem aí e sobrevivem da pesca, uma agricultura familiar, venda de artesanatos, criação de abelhas e produção de mel, além do turismo, que hoje é a principal fonte de renda da comunidade. Praticam educação ambiental e sustentabilidade.

O meliponário

O meliponário

Logo na chegada à Comunidade de Coroca, um guia local, um caboclo da Amazônia, nos levou para conhecer algumas árvores típicas da floresta e nos ensinar sobre as propriedades medicinais de cada uma delas. Seguimos para visita para a área de criação de abelhas e produção de mel (meliponário). A comunidade desenvolve a produção de mel e a criação de abelhas brasileiras. As espécies brasileiras de abelhas, não têm ferrão e, portanto, não trazem riscos de acidentes para os locais nem para os turistas.

A produção de mel na comunidade

A Starlink nas comunidades remotas

Seguimos visitando Coroca e fomos até uma lojinha de artesanato cooperativo que existe ali. Desde que saímos de Alter do Chão estávamos sem contato com a internet. Quando chegamos na lojinha de artesanato, uma pequena antena da Starlink, fornecia internet para toda a comunidade. Isso era fundamental para viabilizar o negócio da comunidade e conectá-los com o mundo. Sem internet não existe comércio e não existe prosperidade. A chegada da Starlink às comunidades remotas da Amazônia representou uma revolução no acesso à informação, comunicação e oportunidades. Com a internet de alta velocidade via satélite, populações antes isoladas passam a ter acesso a serviços essenciais como educação a distância, telemedicina, e-commerce e contato com o restante do mundo.

A antena da Starlink, conectando a Comunidade Coroca com o mundo.

A ação do Padre José Gross

A Comunidade de Coroca adquiriu importância e sustentabilidade a partir da ação do ​Padre José Gross, missionário alemão da Congregação do Verbo Divino, que desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento socioambiental da Comunidade. Nos anos 1990, ele incentivou os moradores a diversificarem suas atividades econômicas, promovendo a criação de tracajás (tartarugas-da-Amazônia) como alternativa sustentável à agricultura tradicional. Com seu apoio, a comunidade estabeleceu um projeto de preservação e repovoamento desses animais, que se tornou parte essencial da identidade local e contribuiu para a conservação da espécie. Além disso, o Padre Gross auxiliou na construção de infraestruturas, como um muro de contenção no lago Coroca, facilitando a criação de tambaquis e tartarugas. Sua dedicação e visão ajudaram a transformar Coroca em um modelo de turismo de base comunitária e sustentabilidade na região.

Homenagem ao Padre José Gross

Criação de tracajás

Continuamos o programa com o nosso guia e fomos até os tanques onde são criados tracajás e tartarugas. O objetivo inicial desse o projeto com as tartarugas e tracajás era o abate e comercialização oficial da carne com certificado ambiental. Hoje, a Comunidade Coroca, cria apenas para repovoamento e reprodução. A criação de tracajás na Amazônia é uma prática tradicional que alia sustentabilidade, preservação e subsistência. Esses quelônios de água doce, típicos da região, são criados por muitas comunidades ribeirinhas em viveiros naturais ou controlados, tanto para consumo próprio quanto para conservação da espécie. O manejo responsável ajuda a proteger os tracajás da caça predatória e garante uma fonte alimentar rica em proteínas, respeitando os ciclos reprodutivos e os saberes ancestrais dos povos amazônicos.

Criação de tracajás

Comida simples de qualidade

No final do programa na Comunidade Coroca, almoçamos no restaurante que existe ali, para atender aos visitantes. A opção do cardápio é no melhor estilo amazônico. Peixe na brasa. As opções mais demandadas são, o pirarucu, o tambaqui e o filhote. A comida simples, mas de qualidade. Estava espetacular.

Comida simples de qualidade

Um banho de rio na Ponta Grande

Depois do almoço começamos a navegar de volta para Alter do Chão. O dia estava incrivelmente lindo e as águas paradas do Rio Arapiuns eram um presente da natureza, pois nem sempre é assim. Paramos para um banho na praia de Ponta Grande, que possui uma areia incrivelmente branca, emoldurando a paisagem que faz jus ao apelido de “Caribe da Amazônia”. A península da Ponta Grande é muito extensa. Possibilita belas fotos e alguns visitantes aproveitam para uma curta caminhada contemplativa.

A praia da Ponta Grande

Transporte de madeira no Rio Arapiuns

No meio da navegação pelo Rio Arapiuns, encontramos uma grande balsa, transportando madeira rio abaixo. A exploração de madeira na Amazônia, hoje em dia é muito mais controlada e acontece em volume muito menor que no passado. A legislação para a liberação de madeira certificada é mais rigorosa e o contrabando é fiscalizado com rigor. Passamos ao lado da balsa carregada de madeira e fizemos algumas fotografias. Tivemos a sensação de que o piloto e auxiliar ficaram incomodados com as nossas fotos.

Transporte de madeira no Rio Arapiuns

A exploração clandestina de madeira

A exploração clandestina, porém, continua existindo, e é uma das maiores ameaças à floresta, alimentando um mercado ilegal que causa devastação ambiental, perda de biodiversidade e conflitos com comunidades tradicionais. O transporte fluvial desempenha um papel central nesse esquema, pois os rios da região são utilizados como rotas discretas para escoar grandes volumes de toras extraídas ilegalmente. Balsas e barcos transportam madeira por longos trechos, muitas vezes sem fiscalização efetiva. As principais espécies visadas por madeireiros ilegais incluem o ipê, a maçaranduba, o jatobá e a castanheira — árvores de grande porte e alto valor comercial, usadas na construção civil e na indústria moveleira.

A exploração da madeira

Uma imensidão de água

A navegação pelo Rio Arapiuns possibilita a observação de uma paisagem espetacular. Um lugar raro e impressionante pela sua imensidão, sensação de calmaria e isolamento. Uma imensidão de água.

Uma imensidão de água

Qualquer praia é magnífica

Paramos mais uma vez para um banho de rio maravilhoso. Não precisa escolher em qual praia parar. Qualquer lugar é magnífico. A água morna do rio é um convite ao deleite e dá uma vontade de continuar. A sensação é de que podemos ficar ali por muito tempo, observando os peixes que saltam para fora d’água, perseguidos pelos botos ou outro peixe maior qualquer. Como não queríamos navegar à noite, decidimos sair da água, pois o trajeto até o Rio Arapiuns é longo. Quando saímos da água, ainda tivemos mais uma hora e meia de navegação até chegar a Alter do Chão.

As praias do Rio Arapiuns

O Restaurante Tribal

À noite fomos ao Restaurante Tribal, muito ruim, mas não tínhamos outra indicação e foi o que restou para nós naquela noite.

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