O fantástico Rio Tapajós
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- joaquimnery
- 24 de março de 2025
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15 de outubro de 2024
Os gritos dos Bugios
Chegamos em Alter do Chão, na noite anterior. Ficamos hospedados na Pousada Villa Arumã, localizada a 1,5 km do centro da vila, em meio à natureza exuberante da região. Fomos acordados pelos gritos potentes dos macacos Bugios, os gritos guturais ecoam por quilômetros, marcando presença como os sons mais impressionantes da selva. Quando o dia amanhece na Amazônia, os bugios começam seu coro estrondoso, é como se a floresta ganhasse voz, uma sinfonia selvagem e ancestral que reverbera pela mata, lembrando que estávamos no meio da Amazônia.

De barco pelo Tapajós
Nos três dias que ficamos em Alter do Chão, contratamos um barco pequeno, com um guia e piloto que nos acompanhou em todos os programas. O nosso guia se apresentou com o apelido de John Lennon e era assim que queria ser chamado. Uma pessoa especial. Um caboclo do Tapajós. Inteligente, com um conhecimento grande sobre a história e vivência da região. Se tornou um companheiro e professor nesses três dias de vivência que tivemos em Alter do Chão.

A foz do Rio Tapajós
No primeiro dia de programa, decidimos descer o Rio Tapajós, em direção à sua foz e ver algumas das principais atrações dessa parte do seu curso. A foz do Rio Tapajós é um espetáculo natural que encanta pela grandiosidade e beleza singular. Desagua no majestoso Rio Amazonas, nas proximidades de Santarém, no Pará. Próximo à sua foz, quando o Tapajós se funde com o Amazonas, atinge uma largura impressionante, especialmente durante o período das cheias, que pode ultrapassar os 20 quilômetros, conferindo ao rio um aspecto quase de mar. A imensidão de suas águas é tamanha que, ao olhar para o horizonte, mal se enxerga a outra margem. Uma paisagem de tirar o fôlego, onde o céu e o rio parecem se fundir. O rio parece um mar. A paisagem lembra a de um mar interior, sem margens visíveis ao longe, com o céu refletido nas águas e o vento soprando forte sobre a superfície ampla.

Um colosso hidrográfico
O Tapajós é um verdadeiro colosso hidrográfico da Amazônia, onde não apenas dois rios se encontram, mas dois mundos se misturam. O Tapajós, com suas águas claras e verdes, e o Amazonas, turvo e poderoso. O resultado é uma faixa larga, majestosa, que impressiona até os viajantes mais experientes. É exatamente na foz do Rio Tapajós, que o Rio Amazonas alcança a sua maior largura. Foi para lá que seguimos.

O trajeto do Rio Tapajós
O Rio Tapajós nasce no Planalto Central Brasileiro, no Mato Grosso, a partir da confluência dos rios Juruena e Teles Pires. Corre para o norte, em direção ao Rio Amazonas, de quem é afluente da margem direita, percorre cerca de 2.000 quilômetros até desaguar no Rio Amazonas, próximo à cidade de Santarém (PA). Passa por uma área de clima tropical, com regime pluvial alternado, com chuvas de verão e secas de inverno. Durante o período de chuvas o rio enche e fica muito largo. Na seca, aparecem as praias nas margens do rio. É a melhor época para o turismo, pois as praias são maravilhosas. O inverno de 2024 foi de longo período de secas, por esse motivo, as praias eram muitas e estavam bastante largas.

O Restaurante Casa de Saulo
Descemos o Rio em direção a Santarém (PA) e paramos no Restaurante Casa de Saulo. Uma verdadeira joia da gastronomia amazônica. Como o rio estava em período de seca, se formou uma extensa praia em frente Casa de Saulo. O restaurante possui uma vista deslumbrante, o espaço combina rusticidade, conforto e um cardápio que exalta os sabores da região com criatividade e sofisticação. Pratos como o filhote grelhado e pirarucu sempre preparados com ingredientes frescos e locais fazem sucesso no cardápio. Mais do que uma refeição, a Casa de Saulo oferece uma experiência sensorial completa, onde a culinária, a paisagem e a cultura amazônica se encontram em perfeita harmonia.


O “Caribe” da Amazônia
Almoçamos na Casa de Saulo e continuamos a descer o rio em direção a Santarém. Paramos para um banho espetacular e seguimos adiante. Passamos pelo Encontro das Águas, onde as águas azul-esverdeadas e cristalinas do Tapajós correm lado a lado com as barrentas e densas do Amazonas, sem se misturar de imediato, um contraste visual hipnotizante que pode ser observado por quilômetros.

O Porto de Santarém
Seguimos até o Porto de Santarém, um dos mais estratégicos da Amazônia e que desempenha um papel fundamental na logística e no escoamento da produção agrícola do Brasil, especialmente da soja, milho e outros grãos oriundos do Centro-Oeste. Localizado na confluência dos rios Tapajós e Amazonas, o porto possui uma posição geográfica privilegiada, que permite o transporte fluvial eficiente até os portos do Oceano Atlântico, reduzindo distâncias e custos em relação aos trajetos tradicionais pelo Sudeste e Sul do país.

Um elo vital para a Amazônia
Além de sua importância econômica, o Porto de Santarém é também um elo vital entre a Amazônia e outras regiões, conectando comunidades ribeirinhas, fomentando o comércio regional e impulsionando o desenvolvimento da região oeste do Pará. Sua estrutura conta com terminais para carga geral, granel e contêineres, e tem se expandido nos últimos anos em resposta ao aumento do fluxo de exportações. Combinando vocação natural e papel estratégico, o porto é uma peça-chave na integração da Amazônia à economia global.

A força da Cargill
No porto de Santarém fica visível a força da Cargill. Uma gigante do agronegócio no Brasil, com forte presença na produção, comercialização e exportação de grãos, especialmente soja e milho. Sua atuação estratégica em portos, como o de Santarém, e sua vasta rede logística consolidam seu papel como uma das principais engrenagens do agronegócio brasileiro e das exportações do país.

As ligações fluviais da Amazônia
O isolamento geográfico das cidades da Amazônia torna o transporte fluvial essencial para a vida e a economia da região. As distâncias são enormes: cerca de 800 km entre Belém e Santarém, e mais de 1.300 km de Santarém até Manaus, por rios que cortam a floresta. Barcos e navios são, muitas vezes, a única forma de conexão entre comunidades e centros urbanos, reforçando o papel vital das hidrovias na Amazônia.

Desafios da Amazônia
A viagem fluvial entre Belém e Santarém pode levar de 36 a 48 horas, enquanto o trajeto entre Santarém e Manaus costuma durar entre 2 e 3 dias, dependendo da embarcação. Esses tempos variam conforme o sentido da viagem: subindo o rio, contra a corrente, a navegação é mais lenta e exige mais esforço dos motores; já descendo o rio, com o fluxo das águas a favor, o trajeto é mais rápido e econômico. Essas diferenças impactam diretamente o custo e a logística do transporte na região.

As conexões rodoviárias
Santarém é uma importante cidade da Amazônia, porém isolada do restante do país, como a maioria das cidades e comunidades da região. A partir de Santarém, a BR-163 e a Rodovia Transamazônica (BR-230) desempenham um papel crucial na integração da Amazônia com o restante do Brasil. A BR-163 conecta Santarém aos polos agrícolas do norte do Mato Grosso, como Sinop e Sorriso, em um percurso de aproximadamente 1.770 km, facilitando o escoamento da produção de grãos até os portos do Rio Tapajós. Já a BR-230 (Transamazônica) liga Santarém a Belém, capital do Pará, por cerca de 1.350 km, atravessando áreas de floresta, comunidades ribeirinhas e pequenas cidades. Juntas, essas rodovias são veias logísticas vitais que impulsionam a economia, conectam zonas de produção ao mercado global e ajudam a reduzir o isolamento histórico da região amazônica. O povo da Amazônia vive um isolamento marcado por distâncias imensas, baixa infraestrutura e difícil acesso a serviços essenciais. Muitas comunidades só são acessíveis por rios ou trilhas precárias, o que limita o acesso à saúde, educação e oportunidades econômicas. Ainda assim, resistem com força, criatividade e profundo vínculo com a floresta.

O contrabando de água doce
Quando estávamos retornando do Porto de Santarém, flagramos um grande navio que estava enchendo os seus tanques para realizar contrabando de água, uma prática cada vez mais comum na Amazônia. O contrabando de água doce a partir dos rios da Amazônia por grandes navios é uma preocupação crescente e silenciosa que escancara a vulnerabilidade da região frente à exploração ilegal de seus recursos naturais. De maneira disfarçada, embarcações estrangeiras atracam em portos amazônicos ou navegam pelos grandes rios como o Amazonas e o Tapajós, supostamente para abastecimento técnico, mas retiram volumes expressivos de água doce, um recurso cada vez mais valioso no cenário global de crise hídrica.

Um atentado à soberania nacional
Essa prática, muitas vezes encoberta por brechas legais e falta de fiscalização eficaz, representa não apenas uma perda patrimonial para o Brasil, mas também um atentado à soberania nacional. A água amazônica, com sua pureza e abundância, se tornou alvo de interesses internacionais, e sua retirada clandestina levanta sérias questões ambientais, sociais e geopolíticas. Em tempos de mudanças climáticas e escassez global de água potável, é urgente estabelecer mecanismos mais rígidos de controle, transparência e proteção para impedir que esse tesouro líquido continue sendo drenado sob os olhos do mundo.

O pôr-do-sol em Alter do Chão
Voltamos para Alter do Chão a tempo de assistir a um belíssimo pôr-do-sol e finalizamos com um banho de rio espetacular iluminado pela lua cheia.

O ferrão das arraias
Desembarcamos em Alter do Chão, arrastando os pés na areia no fundo do rio, com medo de acidente envolvendo o ferrão das arraias. Nos rios da Amazônia, um dos riscos mais comuns para banhistas e pescadores. As arraias ficam escondidas no fundo arenoso dos rios. São difíceis de ver e, quando pisadas, reagem com uma ferroada extremamente dolorosa e perigosa, que pode causar infecções graves e até necrose. A atenção e o cuidado ao entrar na água são essenciais para evitar esse tipo de acidente silencioso, mas frequente na região.

O Restaurante Ty
À noite fomos ao bom Restaurante Ty, uma charmosa referência da culinária regional com toques contemporâneos, que combina sabores amazônicos autênticos com uma apresentação criativa. Uma boa alternativa em Alter do Chão.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


