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De Paris a Londres: atravessando o Canal da Mancha

6 de janeiro de 1992

A despedida de Paris

Acordamos cedo. Às seis da manhã deixamos o hotel em Paris e começamos uma nova etapa daquela primeira grande viagem pela Europa. Depois dos dias que havíamos passado na capital francesa, seguiríamos agora com outros viajantes, durante mais vinte dias pelo continente. Foi também naquele momento que conhecemos nossos novos companheiros de viagem: nove brasileiras de Resende, no Rio de Janeiro, além de argentinos e colombianos, formando um grupo bastante variado. Partimos em direção ao norte da França, com destino a Calais. Aos poucos, Paris foi ficando para trás e a paisagem urbana deu lugar às planícies do norte francês. Havia também a expectativa de conhecer um novo país. Naquele mesmo dia atravessaríamos o Canal da Mancha e chegaríamos à Inglaterra.

Atravessando o Canal da Mancha

Calais e o Canal da Mancha

Calais ocupa uma posição geográfica estratégica no extremo norte da França, diante da costa inglesa. É justamente nessa região que o Canal da Mancha apresenta uma de suas menores distâncias entre os dois países, são 34 quilômetros separando a região de Calais dos arredores de Dover. Durante séculos, essa pequena faixa de água teve enorme importância comercial, militar e política na história europeia. Em 1992, o Eurotúnel ainda não estava funcionando. Ele seria inaugurado apenas em 1994. Por isso, nossa travessia foi feita da maneira tradicional: de ferry-boat. Embarcamos em Calais e seguimos pelo canal em direção a Dover. Almoçamos durante a viagem e aproveitamos para circular pelo navio. A travessia era a passagem da Europa continental para as Ilhas Britânicas.

Chegando na Inglaterra.

As falésias brancas de Dover

A aproximação de Dover trouxe uma das imagens mais marcantes daquele dia. Do ferry começaram a surgir as famosas falésias brancas, que se elevam sobre o mar e há séculos funcionam como uma espécie de cartão de boas-vindas à Inglaterra. A coloração clara resulta principalmente do giz, uma rocha calcária formada por sedimentos marinhos acumulados ao longo de milhões de anos. Chegamos a Dover por volta das duas da tarde e encontramos um dia surpreendentemente ensolarado para o inverno inglês. Logo que seguimos viagem, outra mudança ficou evidente. A paisagem rural inglesa era muito diferente daquela que vínhamos observando na França. Pastagens, rebanhos de ovelhas, pequenas propriedades e construções tradicionais formavam um cenário que correspondia bastante à imagem que eu tinha do interior da Inglaterra.

As falésias brancas de Dover

Canterbury, uma parada cheia de história

Nosso caminho para Londres incluía uma parada em Canterbury, no condado de Kent. A cidade guarda vestígios de uma história que atravessa diferentes períodos da formação da Inglaterra. Já era um importante núcleo urbano durante a ocupação romana, mas sua relevância religiosa cresceu a partir de 597, quando Agostinho de Canterbury foi enviado pelo papa Gregório I para converter os anglo-saxões ao cristianismo. Canterbury acabou se transformando no principal centro da Igreja Católica na Inglaterra e em um dos grandes destinos de peregrinação da Europa medieval. Caminhar por suas ruas estreitas, observando construções antigas, pequenas lojas e trechos das muralhas, foi como entrar em outra época. Depois da monumentalidade de Paris, encontrávamos uma cidade menor, mais silenciosa e com uma atmosfera tipicamente inglesa.

As muralhas de Canterbury

A Catedral de Canterbury

A grande atração era a Catedral de Canterbury. Sua história é bem mais antiga que o edifício gótico que vemos hoje: a primeira catedral foi fundada no final do século VI, enquanto a construção atual resulta de sucessivas reconstruções e ampliações realizadas ao longo de vários séculos. Canterbury tornou-se especialmente importante após o assassinato do arcebispo Thomas Becket dentro da catedral, em 1170, episódio que transformou o lugar em um dos principais centros de peregrinação da cristandade medieval. Nós ainda estávamos muito impressionados com a Catedral de Chartres, que havíamos visitado poucos dias antes, e a comparação foi inevitável. Eram experiências diferentes. Chartres havia me marcado especialmente pelos vitrais e pela grandiosidade de seu interior; Canterbury impressionava também pelo peso da história que carregava.

A Catedral de Canterbury

Pelas estradas inglesas até Londres

Saímos de Canterbury às três da tarde e seguimos em direção a Londres. O sol de inverno começava a baixar e proporcionou uma bonita luz sobre a paisagem inglesa. Era uma daquelas viagens de estrada em que o caminho também fazia parte do passeio. Na aproximação da capital passamos pela região de Greenwich, um nome especialmente familiar para mim como geógrafo. É ali que se encontra o meridiano de referência de Greenwich, estabelecido internacionalmente como 0°, a partir do qual são medidas as longitudes para leste e oeste. Era interessante encontrar pessoalmente um lugar que durante tantos anos havia aparecido nos mapas e nas aulas de Geografia. Pouco depois, a dimensão urbana aumentou rapidamente. Estávamos finalmente entrando em Londres.

O Hyde Park

Hyde Park e nossa primeira noite londrina

Ficamos hospedados no Hotel Hyde Park Tower, próximo ao Hyde Park. O parque tem uma história que remonta ao século XVI, quando Henrique VIII adquiriu aquelas terras e as transformou em área de caça real. Com o tempo, tornou-se um dos espaços verdes mais conhecidos de Londres. Mas não tínhamos intenção de permanecer no hotel naquela primeira noite. Depois de deixarmos as malas, resolvemos sair por conta própria. Pegamos um daqueles ônibus vermelhos de dois andares que eu conhecia até então apenas por fotografias e filmes e seguimos para o centro. Depois de tantos dias acompanhados em Paris, começávamos nossa primeira pequena aventura londrina.

Os Double Deck de Londres

Piccadilly Circus: finalmente em Londres

Descemos em Piccadilly Circus, um dos lugares mais movimentados e reconhecíveis da cidade. As luzes, os letreiros e o movimento davam ao lugar uma energia completamente diferente daquela que havíamos encontrado em Canterbury poucas horas antes. No centro está a fonte coroada pela figura alada popularmente chamada de Eros, embora a escultura represente originalmente Anteros. Jantamos na Pappagalli’s, uma pizzaria charmosa onde fomos muito bem atendidos, e ficamos algum tempo observando o movimento ao nosso redor. Havíamos começado aquela manhã em Paris, atravessado o norte da França, navegado pelo Canal da Mancha, visto as falésias de Dover, conhecido Canterbury e terminado o dia em pleno coração de Londres. Voltamos ao hotel cansados, mas ainda tínhamos muito pela frente. No dia seguinte começaria nossa verdadeira maratona londrina.

Piccadilly Circus

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