Dos Invalides ao Museu d’Orsay: um dia entre a história e a arte em Paris
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- joaquimnery
- 23 de agosto de 2026
- Europa França Super Destaque
4 de janeiro de 1992
Mais um dia caminhando por Paris
No dia 4 de janeiro de 1992, depois do café da manhã, saímos novamente para conhecer Paris a pé. Começamos pela Champs-Élysées, onde paramos para colocar alguns cartões-postais no correio, um hábito praticamente obrigatório nas viagens daquela época. Seguimos caminhando em direção ao Sena e chegamos à Ponte Alexandre III. Andar por Paris sempre foi uma das melhores maneiras de conhecer a cidade. A cada mudança de rua surgia um monumento, uma praça ou um edifício que eu conhecia apenas de livros e fotografias. Naquele dia, o roteiro acabaria reunindo alguns dos lugares que melhor representam a história francesa, passando pela Ponte Alexandre III, pelo Hôtel des Invalides e pelo túmulo de Napoleão, antes de terminar entre as obras de arte do Museu d’Orsay.

A Ponte Alexandre III e a Paris da Belle Époque
A Ponte Alexandre III é a mais ornamentada das pontes que atravessam o Sena. Construída entre 1896 e 1900, nasceu como símbolo da aliança franco-russa e recebeu o nome do czar Alexandre III. Foi inaugurada durante a Exposição Universal de 1900, período em que Paris buscava mostrar ao mundo sua modernidade. Seus lampiões, esculturas, ninfas, querubins e grandes figuras douradas transformam a travessia em um grande monumento. De um lado estão o Grand Palais e o Petit Palais. Do outro, aparece a Esplanade des Invalides e a cúpula dourada que se destaca no horizonte. Mesmo naquela primeira viagem, sem conhecer ainda todos os detalhes históricos, era impossível não perceber como Paris utilizava suas pontes, avenidas e monumentos para criar grandes perspectivas urbanas.

Uma ponte que também conta a história da cidade
A Alexandre III foi projetada com um único arco metálico para não interferir na visão dos monumentos às margens do Sena. Essa preocupação estética ajuda a explicar por que a ponte se integra tão bem à paisagem. Nas extremidades, quatro grandes pilares sustentam esculturas douradas que representam diferentes períodos da história francesa. Ao longo dos anos voltei a fotografá-la de diferentes pontos, inclusive do alto, e ela continua sendo uma das imagens que melhor representam a monumentalidade de Paris. Vista a partir da margem do Sena, ou de suas próprias calçadas, a ponte muda de perspectiva, mas preserva a mesma elegância. Para quem gosta de fotografia, é um daqueles lugares em que arquitetura, rio, esculturas e grandes monumentos aparecem juntos em todas as direções.

Hôtel des Invalides, uma obra de Luís XIV
Depois de atravessarmos a ponte, seguimos até o Hôtel des Invalides, construído por determinação de Luís XIV a partir de 1670. O objetivo era criar um grande complexo destinado a acolher soldados feridos, mutilados ou envelhecidos depois de servirem ao exército francês. Em determinados períodos, milhares de veteranos chegaram a viver ali. O conjunto impressiona pelas dimensões e pela arquitetura clássica, organizada em torno de grandes pátios. Atualmente, parte de suas instalações continua ligada às Forças Armadas francesas, enquanto outros espaços abrigam museus e monumentos. Mais do que uma atração turística, os Invalides ajudam a compreender a importância que a história militar ocupa na formação da França. E essa história aparece de maneira particularmente clara dentro do Musée de l’Armée.

O Museu do Exército e séculos de guerras
O Musée de l’Armée reúne uma extraordinária coleção relacionada à história militar. Percorremos salas com armaduras, espadas, armas, uniformes e objetos de diferentes períodos. Algumas das armaduras chamavam especialmente a atenção pela riqueza dos detalhes e pela dimensão quase artística de peças que, originalmente, tinham uma função de proteção nos campos de batalha. Outras áreas do museu acompanham conflitos mais recentes, especialmente as duas guerras mundiais. Fotografias, documentos, cartazes de recrutamento, uniformes e objetos pessoais ajudam a colocar os acontecimentos dentro de seu contexto histórico. Para mim, que sempre tive interesse por geografia e história, a visita acabou funcionando como uma grande aula. As guerras que estudamos nos livros aparecem ali através dos objetos usados pelas pessoas que participaram diretamente daqueles acontecimentos.

Napoleão sob a cúpula dourada
A grande referência visual dos Invalides é a cúpula dourada da Église du Dôme, construída no final do século XVII. É sob ela que está o túmulo de Napoleão Bonaparte. Depois de morrer em 1821, exilado na Ilha de Santa Helena, seus restos mortais foram levados de volta à França em 1840. O enorme sarcófago ocupa o centro de uma cripta circular, cercada por esculturas e referências às campanhas e realizações do imperador. Também estão sepultados nos Invalides outros importantes personagens da história militar francesa, como Vauban e o marechal Ferdinand Foch. Estar diante do túmulo de Napoleão naquela primeira viagem tinha um significado especial. Era encontrar, uma personagem que havia atravessado a história europeia e influenciado fronteiras, governos e conflitos muito além da França.

Da história militar para a arte
Saímos dos Invalides e seguimos caminhando debaixo de chuva em direção ao Museu d’Orsay. O prédio já chama atenção antes mesmo de entrarmos. O museu ocupa a antiga Gare d’Orsay, uma estação ferroviária construída para a Exposição Universal de 1900. Décadas depois, quando a estação perdeu sua função original, o edifício quase foi demolido. Felizmente acabou preservado e transformado em museu, inaugurado em 1986. A adaptação manteve elementos da antiga estação, inclusive o grande relógio que continua sendo uma das marcas do prédio. Essa combinação entre arquitetura ferroviária e espaço cultural tornou o d’Orsay muito diferente dos museus tradicionais. E, depois de passar a manhã mergulhados na história militar francesa, entrar naquele universo de pinturas e esculturas parecia quase uma mudança completa de cenário.

Monet, Renoir, Degas e os impressionistas
O acervo do Museu d’Orsay cobre principalmente a produção artística entre meados do século XIX e o início do século XX. É justamente nesse período que surgiram alguns dos movimentos que transformaram a história da arte. O museu tornou-se especialmente conhecido por sua coleção impressionista e pós-impressionista, com obras de Monet, Renoir, Degas, Cézanne, Van Gogh e Toulouse-Lautrec, entre muitos outros. Diante das telas, comecei a compreender melhor como aqueles artistas haviam mudado a maneira de representar a luz, as paisagens e as cenas da vida cotidiana. Uma das imagens que guardei foi a das famosas ninféias e da ponte japonesa de Monet, motivos que o pintor explorou repetidamente em seu jardim de Giverny. Era uma maneira completamente diferente de olhar e registrar uma paisagem.

Um dia que atravessou séculos de história
Quando finalmente deixamos o Museu d’Orsay, estávamos exaustos. Depois de tantas horas caminhando, decidimos pegar o metrô de volta para casa. Ainda precisávamos entrar em contato com a guia da excursão que começaria no dia seguinte e acertar os últimos detalhes para nos juntarmos ao grupo. Revendo hoje as fotografias daquele 4 de janeiro de 1992, percebo quanto conseguimos conhecer em um único dia. Começamos numa avenida símbolo da Paris moderna, atravessamos uma ponte construída para a Exposição Universal de 1900, mergulhamos na história militar francesa nos Invalides, ficamos diante do túmulo de Napoleão e terminamos cercados pelos impressionistas no d’Orsay. Era apenas o começo daquela primeira viagem à Europa, mas Paris já mostrava por que seria uma cidade à qual eu voltaria tantas vezes.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


