La Défense e Parc de la Villette: a Paris moderna antes da despedida
- 59 Views
- joaquimnery
- 7 de setembro de 2026
- Europa França Super Destaque
5 de janeiro de 1992
O último dia da nossa primeira temporada em Paris
Depois de quase duas semanas descobrindo Paris, chegamos ao último dia antes de iniciarmos a excursão que nos levaria a outros países da Europa. Após o café da manhã, saímos com Sebastião Nery e Cristina em direção a La Défense. Até então, nossa imagem de Paris estava muito associada aos grandes monumentos, às avenidas, aos edifícios históricos e às margens do Sena. Naquele dia conheceríamos uma face completamente diferente da cidade. La Défense nos apresentou uma Paris de arranha-céus, vidro, concreto e grandes estruturas urbanas. Depois, seguiríamos para o Parc de la Villette, outro projeto que representava a modernização da capital francesa. Era uma maneira interessante de encerrar aqueles primeiros dias: depois de mergulhar durante quase duas semanas na história de Paris, fomos conhecer a cidade que olhava para o futuro.

La Défense, uma Paris que eu ainda não conhecia
Chegar a La Défense causou um impacto imediato. O bairro era completamente diferente de tudo o que tínhamos visto. Prédios altos, grandes fachadas de vidro, passarelas, vias subterrâneas e uma urbanização muito mais densa criavam uma atmosfera quase futurista. Na época, descrevi inclusive uma certa sensação de angústia diante daquela escala monumental. La Défense havia sido planejada para concentrar parte das atividades empresariais fora do centro histórico, permitindo que Paris se modernizasse sem transformar radicalmente sua paisagem tradicional. Hoje é um dos maiores distritos de negócios da Europa. Para quem vinha passando os dias entre igrejas, palácios, museus e edifícios dos séculos anteriores, aquela mudança era impressionante. Era como encontrar duas cidades completamente diferentes dentro da mesma metrópole.

O Grande Arco e o eixo histórico de Paris
No centro daquele conjunto está o Grande Arche de La Défense, que havia sido inaugurado há pouco mais de dois anos quando estivemos ali. Projetado pelo arquiteto dinamarquês Johan Otto von Spreckelsen, o monumento foi inaugurado em 1989, durante o governo de François Mitterrand e no ano do bicentenário da Revolução Francesa. Sua forma é a de um imenso cubo vazado, com aproximadamente 110 metros de altura. Mais interessante, porém, é sua localização. O Grande Arco prolonga o eixo histórico de Paris, uma linha monumental que começa no Louvre, passa pelo Arco do Triunfo do Carrossel, Jardim das Tulherias, Praça da Concórdia e Champs-Élysées, alcança o Arco do Triunfo e continua até La Défense. O urbanismo transforma, assim, séculos diferentes da história parisiense em uma única perspectiva.

Um monumento que quase não conseguimos conhecer
Apesar de toda a expectativa, tivemos dificuldade para encontrar o acesso correto ao Grande Arco e acabamos não conseguindo explorá-lo com a tranquilidade que gostaríamos. Talvez isso também tenha contribuído para aquela primeira impressão de La Défense como um lugar complexo, de grandes dimensões e circulação pouco intuitiva para quem chegava pela primeira vez. Ainda assim, a visita foi importante. O Grande Arco não foi concebido simplesmente como uma versão moderna do Arco do Triunfo. Seu projeto está associado à ideia de humanidade e aos grandes ideais contemporâneos, funcionando também como edifício. Fotografá-lo naquela época significava registrar um dos monumentos mais novos de Paris. Hoje, revendo aquelas imagens de 1992, elas adquiriram outro valor: mostram como nós vimos La Défense quando o Grande Arco ainda era uma novidade na paisagem da cidade.
Parc de la Villette, outra experiência de modernidade
De La Défense seguimos para o Parc de la Villette, no nordeste de Paris. Mais uma vez encontramos um projeto urbano muito diferente da Paris clássica. A região havia sido profundamente transformada depois do encerramento dos antigos matadouros e do mercado de carnes que funcionavam ali. A partir dos anos 1980, uma extensa área foi convertida em um grande complexo dedicado à cultura, ciência, lazer e educação. O projeto do parque, desenvolvido pelo arquiteto Bernard Tschumi, rompeu com a ideia tradicional dos jardins parisienses. Em vez da simetria clássica de lugares como as Tulherias, La Villette combinava grandes espaços abertos, edifícios contemporâneos e estruturas vermelhas espalhadas pelo terreno, as chamadas folies. Era mais um exemplo de como Paris conseguia incorporar projetos modernos sem abandonar seu patrimônio histórico.

A Géode e um cinema que parecia coisa do futuro
Uma das experiências mais marcantes foi conhecer a Géode, a enorme esfera revestida por placas metálicas refletoras que se tornou um dos símbolos de La Villette. Dentro dela funcionava um cinema com tela hemisférica de grandes dimensões. Assistimos a um filme sobre a formação do Grand Canyon e, para os padrões tecnológicos de 1992, aquilo era extraordinário. As imagens ocupavam praticamente todo o nosso campo de visão, produzindo uma sensação de imersão que eu nunca havia experimentado. Parecia que estávamos dentro da paisagem. É interessante lembrar disso hoje, quando recursos digitais e experiências imersivas se tornaram muito mais comuns. Naquele momento, entretanto, aquilo representava uma tecnologia surpreendente e ajudava a reforçar a impressão de que estávamos conhecendo uma Paris voltada para o século XXI.

Ciência, tecnologia e conhecimento
Continuamos a visita pela Cité des Sciences et de l’Industrie, um dos maiores espaços europeus dedicados à divulgação científica. Percorremos áreas relacionadas ao som e à imagem, vimos aquários, visitamos o planetário e uma exposição que reproduzia aspectos do ambiente da Antártida. A proposta era aproximar ciência e tecnologia do grande público por meio de experiências interativas, algo que ainda não era tão comum nos museus que conhecíamos. Depois de tantos dias visitando espaços dedicados à arte e à história, como Louvre, Versailles, Invalides e d’Orsay, La Villette oferecia um contraste interessante. Paris mostrava que seu patrimônio não estava apenas no passado. A cidade também investia em arquitetura contemporânea, conhecimento científico e novas formas de apresentar cultura ao público.

A despedida de Paris começava
Saímos de La Villette e seguimos para o Quartier de l’Opéra, onde fomos ao restaurante Hippopotamus. O almoço acabou acontecendo já bastante tarde e tinha um significado diferente dos anteriores: começávamos ali nossa despedida de Paris e, principalmente, de Sebastião e Cristina. Eles haviam sido nossos anfitriões durante aqueles doze dias e tiveram uma participação fundamental nessa primeira experiência na cidade. Depois da refeição, atravessamos Paris em direção ao Hotel Europark, na região da Porte des Lilas, onde encontraríamos o grupo da excursão. Para nossa surpresa, tanto o hotel quanto o ônibus que faria a viagem eram melhores do que imaginávamos. Aos poucos, aquela viagem que até então tinha sido muito pessoal, vivendo Paris com familiares, começava a ganhar outra dinâmica.

Doze dias que mudaram minha relação com Paris
À noite, tomamos alguns drinques para comemorar o final daquela etapa e nos despedirmos dos nossos anfitriões. Foram doze dias intensos, suficientes para criar uma relação com Paris que continuaria crescendo nas décadas seguintes. Conhecemos monumentos, museus, bairros, praças e avenidas, mas também tivemos tempo para caminhar sem pressa e observar a vida da cidade. Revendo hoje os registros dessa viagem, percebo como aquele primeiro contato influenciou minhas viagens posteriores e também meu olhar fotográfico. Paris seria uma cidade à qual eu retornaria muitas vezes, sempre encontrando alguma coisa diferente para ver e fotografar. Mas nenhuma dessas viagens poderia repetir a sensação daquela primeira descoberta. Na manhã seguinte, deixaríamos a França em direção a Londres. Uma nova etapa da minha primeira viagem à Europa estava prestes a começar.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


