O Rio Mekong foi o nosso caminho do Vietnã para o Camboja
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- joaquimnery
- 30 de novembro de 2025
- Ásia Camboja Super Destaque Vietnã
7 de outubro de 2025
Uma parada em Hong Ngu
Passamos o dia a bordo, navegando suavemente pelas águas do Mekong até a fronteira com o Camboja. Do convés, contemplamos as margens verdes, povoadas de casas de palafita e barcos de pesca. Foi um dia de contemplação, leitura e descanso, embalados pelo movimento sereno do rio. Fizemos uma parada em Hong Ngu, no norte do Delta, já próximo à fronteira com o Camboja.

A produção dos tecidos Khmer
Em Hong Ngu, visitamos uma casa vietnamita onde é feita a produção artesanal dos tecidos Khmer, uma tradição herdada do povo Khmer, originário do atual Camboja e presente há séculos no sul do Vietnã. O tecido Khmer é conhecido pelos padrões geométricos e cores vibrantes, geralmente confeccionado em algodão ou seda, e usado em roupas tradicionais, lenços e objetos de decoração.

Os teares de madeira
Os tecelões trabalham em teares de madeira, entrelaçando manualmente os fios e utilizando pigmentos naturais para tingimento. O processo é lento e minucioso, exigindo técnica e experiência. Mais do que um produto artesanal, o tecido Khmer representa a preservação cultural e o intercâmbio histórico entre o Vietnã e o Camboja, ainda muito visível nas comunidades do Delta do Mekong.

O encontro com um combatente da Guerra do Vietnã
Continuamos caminhando pela vila. Em Long Khanh, onde visitamos a casa de um morador local que participou da Guerra do Vietnã, uma experiência que ajudou a compreender de forma mais próxima a dimensão humana do conflito. Entre objetos pessoais, fotografias antigas e relatos emocionados, ele compartilhou lembranças do período em que o país estava dividido e vivia sob constante tensão. A simplicidade da casa contrasta com o peso da história que ela abriga. Hoje, ele vive do cultivo e do artesanato, como muitos ex-combatentes que reconstruíram suas vidas após a guerra. Essa visita trouxe um olhar mais real e humano sobre o passado recente do Vietnã, onde memórias de resistência e superação continuam presentes no cotidiano das comunidades do interior. Foi a primeira vez que tivemos relatos de vietnamitas sobre o período da Guerra do Vietnã. Eles não gostam de falar muito sobre esse assunto.

O comunismo no Vietnã
A história do comunismo no Vietnã está ligada à luta pela independência e à formação da identidade nacional no século XX. O movimento ganhou força no início do século, inspirado pelas ideias de Marx e Lenin e liderado por Ho Chi Minh, que fundou o Partido Comunista da Indochina em 1930. Após a vitória sobre os franceses, em 1954, o país foi dividido: o Vietnã do Norte adotou o regime comunista, enquanto o Sul seguiu alinhado aos Estados Unidos. Com o fim da Guerra do Vietnã, em 1975, o regime socialista foi unificado sob o nome República Socialista do Vietnã, com economia centralizada e controle estatal.

A abertura econômica
Nas décadas seguintes, o governo percebeu a necessidade de reformar o sistema. Em 1986, lançou o Doi Moi, um programa de abertura econômica inspirado na Perestroika da URSS, que combinou o socialismo com políticas de mercado. Desde então, o Estado manteve o controle político, mas incentivou a iniciativa privada e os investimentos estrangeiros. O governo ainda concede subsídios estratégicos a setores essenciais, como agricultura, energia e habitação popular, e oferece benefícios fiscais a empresas que operam em zonas rurais ou industriais prioritárias. Essa combinação de planejamento central e mercado controlado tem sido fundamental para transformar o Vietnã em uma das economias que mais crescem na Ásia.

A exploração de areia no leito do Rio Mekong
Continuamos a navegar subindo o Rio Mekong, já bem próximo à fronteira com o Camboja. É muito comum ver grandes balsas retirando areia do leito do rio, uma atividade que, à primeira vista, parece apenas parte do cotidiano local, mas que esconde um impacto ambiental crescente. O Vietnã é hoje um dos maiores exportadores de areia do mundo, recurso essencial para a construção civil, especialmente em países vizinhos como Singapura.

Problemas ambientais
Essa extração intensiva tem causado sérios problemas ambientais, como a erosão das margens, o afundamento de ilhas fluviais e a destruição de habitats aquáticos. Comunidades ribeirinhas relatam o avanço das águas sobre plantações e casas, resultado direto da instabilidade do leito do rio. Além disso, a retirada de areia interfere na sedimentação natural, comprometendo o equilíbrio ecológico do delta, uma das regiões agrícolas mais férteis do planeta. É um exemplo claro do desafio entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental no Vietnã contemporâneo.

Búfalos-d’água
Um dos símbolos do Delta do Mekong são os búfalos-d’água, que muitas vezes podem ser vistos parcialmente submersos nos canais e arrozais. Esses animais são parte essencial da vida rural vietnamita, usados há séculos como força de trabalho no preparo da terra e no transporte. A cena dos búfalos refrescando-se na água, enquanto camponeses trabalham nas margens, é comum no Delta. Além de sua importância econômica, eles representam um elo cultural e espiritual com o campo vietnamita, sendo frequentemente retratados em pinturas, histórias e celebrações tradicionais.

Saímos do Vietnam e entramos no Camboja
À medida que o Mekong Jewels segue pelo Rio Mekong, as pequenas cidades ribeirinhas revelam o ritmo tranquilo e a vida simples que pulsa em suas margens. Casas de madeira sobre palafitas, mercados flutuantes, templos coloridos e crianças brincando nas águas formam um retrato vivo da cultura local. Cada parada é uma nova descoberta. Vilarejos que parecem suspensos no tempo, sustentados pela fertilidade do rio. À medida que avançamos, o cenário muda sutilmente: bandeiras, templos e rostos anunciam que deixamos o Vietnã e entramos no Camboja. A transição é quase imperceptível, sem fronteiras visíveis, mas carregada de simbolismo. O mesmo rio que une geografias também conecta povos, tradições e histórias. Navegar pelo Mekong é cruzar não apenas fronteiras políticas, mas também culturais, onde a vida segue o fluxo lento e contínuo das águas.

Uma palestra a bordo sobre Vietnã e Camboja
Durante a navegação pelo Mekong, participamos de uma palestra a bordo que ajudou a compreender melhor as diferenças e conexões entre o Vietnã e o Camboja. O guia explicou como os dois países, embora vizinhos e marcados por séculos de trocas culturais, seguiram caminhos distintos em sua história recente. Enquanto o Vietnã viveu o impacto direto da Guerra e a posterior abertura econômica sob o regime comunista, o Camboja enfrentou o trágico período do Khmer Vermelho e um processo mais lento de reconstrução. A conversa também abordou aspectos culturais, como as religiões predominantes. O budismo vietnamita de influência chinesa e o budismo cambojano de tradição theravada, além das diferenças na língua, arquitetura e costumes. Foi um momento enriquecedor, que deu mais sentido à viagem e ampliou o olhar sobre essa região tão complexa e fascinante do Sudeste Asiático.

Noite animada a bordo
Encerramos o dia com uma noite animada a bordo, marcada por música, risadas e muita interação entre a tripulação e os passageiros. O convés se transformou em um pequeno palco onde todos se reuniram para dançar e celebrar o clima descontraído da viagem. Tripulantes vestidos com trajes típicos convidaram os viajantes a participar das coreografias, misturando ritmos locais e internacionais. Foi um momento leve e divertido, que mostrou o espírito acolhedor dos vietnamitas e cambojanos, sempre prontos a compartilhar alegria e hospitalidade. Entre passos improvisados e aplausos, a noite terminou com um sentimento de amizade e cumplicidade, uma pausa festiva em meio à imersão cultural pelo fascinante Delta do Mekong.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


