S-21, uma escola transformada em prisão do genocídio
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- joaquimnery
- 13 de dezembro de 2025
- Ásia Camboja Super Destaque
9 de outubro de 2025
A S-21
A S-21, ou Tuol Sleng, foi o centro de detenção e tortura mais brutal do regime do Khmer Vermelho. Instalado em uma antiga escola de Phnom Penh, funcionava como máquina de repressão sistemática. Estima-se que cerca de 20 mil pessoas tenham passado por suas celas, quase todas executadas. Caminhões chegavam três vezes por mês, trazendo novos prisioneiros que eram imediatamente interrogados sob tortura e preparados para o destino final.

Os “Killing Fields”
Após os interrogatórios, os detidos eram enviados para os Campos de Assassinatos (Killing Fields), onde eram mortos em massa. Para ocultar o cheiro da decomposição, os algozes espalhavam substâncias químicas sobre as valas comuns, tentando evitar que o odor denunciasse o genocídio em curso. Nessas áreas, covas coletivas recebiam continuamente corpos, empilhados sem identificação, compondo um dos cenários mais sombrios da história moderna do Sudeste Asiático.

Assassinato de crianças
Entre os elementos mais chocantes está a árvore onde crianças eram assassinadas com golpes no crânio contra o tronco, símbolo extremo da crueldade do regime. Após a queda do Khmer Vermelho, ossadas e crânios foram retirados dessas covas, revelando a dimensão da tragédia. No total, o genocídio cambojano tirou a vida de 1,7 a 2 milhões de pessoas entre 1975 e 1979, quase um quarto da população do país.

A reação do Vietnã
A queda do Khmer Vermelho começou com a reação do Vietnã, que sofria com ataques constantes de tropas cambojanas nas áreas fronteiriças. Em 1978, após massacres cometidos pelo regime de Pol Pot contra aldeias vietnamitas, o Vietnã lançou uma invasão em grande escala ao Camboja. Em poucas semanas, as tropas vietnamitas avançaram até Phnom Penh, retomando a capital em janeiro de 1979 e derrubando o regime genocida. Pol Pot e seus seguidores fugiram para as zonas montanhosas próximas à fronteira com a Tailândia, onde continuaram atuando como guerrilha.

O julgamento dos líderes do Khmer Vermelho
O julgamento dos líderes do Khmer Vermelho só começou décadas depois, com a criação dos Tribunais Híbridos Cambojanos, apoiados pela ONU. Alguns dos principais responsáveis pelas chacinas, como Nuon Chea e Khieu Samphan foram condenados por genocídio e crimes contra a humanidade. Pol Pot, porém, jamais enfrentou a Justiça: morreu em 1998, em circunstâncias controversas, enquanto vivia em uma base guerrilheira na selva. Sua morte marcou simbolicamente o fim da liderança Khmer Vermelha, mas o trauma deixado por seu regime continua profundamente presente na memória coletiva do Camboja.

Entretenimento a bordo do Mekong Jewels
Voltamos para o Mekong Jewels no fim da tarde e participamos de duas atividades especiais preparadas pela tripulação. A primeira foi uma demonstração dos trajes de gala tradicionais do Camboja, com explicações sobre cores, tecidos e símbolos usados em cerimônias reais e festividades. Em seguida, assistimos a uma aula conduzida por um dos guias locais, que apresentou um panorama claro e direto da história do país, do esplendor do Império Khmer às tragédias do Khmer Vermelho e ao processo de reconstrução nacional. Foi uma oportunidade para entender melhor o contexto cultural e histórico que acompanha cada lugar visitado durante a viagem.

O Mekong muda de cor
O Rio Mekong, coração do Sudeste Asiático, muda de cor conforme as estações: torna-se marrom e denso na época das cheias, quando carrega grandes volumes de sedimentos, e fica mais esverdeado ou azulado durante a seca, quando o fluxo diminui. No Camboja, o maior símbolo nacional é Angkor Wat, presente até na bandeira, um desenho criado pelos franceses durante o período colonial para destacar o orgulho histórico do país. O antigo Império Khmer, responsável por erguer esse e tantos outros templos monumentais, foi um dos maiores impérios da Ásia entre os séculos IX e XIII. Seu território se estendia muito além das fronteiras atuais do Camboja, abrangendo partes do Vietnã, Laos, Tailândia e Mianmar. Com o tempo, guerras, disputas internas, mudanças ambientais e pressões de reinos vizinhos reduziram o império ao Camboja moderno, mas sua herança ainda define a identidade do país.

A geografia do Camboja
A população do Camboja ainda carrega as marcas profundas do genocídio do Khmer Vermelho, refletidas na distribuição etária atual: apenas 5,3% dos habitantes têm mais de 65 anos, e cerca de 70% desse grupo é formado por homens. Um retrato direto da dizimação de mulheres e intelectuais durante o regime. O país possui uma topografia majoritariamente plana, o que favorece a agricultura, especialmente o cultivo do arroz, base da economia e da alimentação cambojana. O Rio Mekong é o grande eixo natural do país, responsável por irrigar campos, transportar pessoas e sustentar ecossistemas inteiros. Um fenômeno único associado ao Mekong é o Lago Tonle Sap, que muda de tamanho e fluxo conforme as estações: durante as cheias, seu volume multiplica, invertendo o curso do rio e formando o maior lago de água doce do Sudeste Asiático.

As paisagens do Rio Mekong
Parte desse dia foi dedicado ao próprio navio. Participamos de atividades culturais, assistimos a apresentações e aproveitamos a tranquilidade do convés. Enquanto a paisagem deslizava suavemente diante de nós, sentíamos que o Mekong não era apenas um rio, mas uma forma de vida que conecta povos e tradições.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


