Templos do Camboja: Angkor Thom, Bayon e Ta Prohm
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- joaquimnery
- 28 de dezembro de 2025
- Ásia Camboja Super Destaque
13 de outubro de 2025
Angkor Thom, A Cidade Real do Império Khmer
Em nosso segundo dia em Siem Reap, exploramos os espetaculares remanescentes de Angkor Thom, a antiga cidade real do Império Khmer. Construída no século XII, durante o auge da dinastia, a cidade permaneceu por séculos escondida sob a selva, até ser redescoberta no século XIX. Entre as ruínas preservadas, o destaque foi o templo Bayon, famoso por suas enigmáticas faces esculpidas em pedra, que parecem observar o visitante de todos os ângulos. Começamos as visitas por Angkor Thom, a antiga capital fortificada do Império Khmer, construída no final do século XII pelo rei Jayavarman VII. Passamos por uma ponte de pedra, com dezenas de figuras hindus esculpidas lado a lado, antes de atravessar o portão monumental. São estátuas que representam o mito hindu do “Churning of the Ocean of Milk”, ou Batelagem do Oceano de Leite, que estão entre as cenas mais marcantes da iconografia de Angkor.

Mitologia hindu
De acordo com a tradição hindu, deuses (devas) e demônios (asuras) se uniram para agitar o Oceano de Leite em busca do amrita, o néctar da imortalidade. Usaram a serpente Vasuki como corda e o Monte Mandara como eixo, enquanto Vishnu, em seu avatar de tartaruga, sustentava a montanha para que não afundasse. O movimento de tração fazia o oceano “ferver”, liberando seres divinos, tesouros e, por fim, o tão desejado néctar. É um mito que simboliza a luta entre forças opostas, a renovação da vida e a busca pelo equilíbrio.

As estátuas e a serpente Vasuki
Esse episódio mítico aparece com destaque nos templos de Angkor, especialmente em Angkor Wat e nos portões de Angkor Thom. As longas fileiras de estátuas segurando a serpente Vasuki, metade devas, metade asuras, representam justamente o esforço conjunto para conquistar o amrita. Para o Império Khmer, que adotou muitos elementos da cosmologia hindu, a cena expressava poder, prosperidade e proteção espiritual. Caminhar por esses portões monumentais é como atravessar um capítulo vivo da mitologia indiana, reinterpretado pela arte e pela fé do povo Khmer.

Angkor Thom
Angkor Thom foi concebida como um centro político, religioso e militar, abrigando templos, praças, residências reais e estruturas cerimoniais. Caminhar por suas avenidas é imaginar a grandiosidade de um reino que governou grande parte da Indochina. A influência da Índia antiga é evidente nos mitos, na iconografia e nas escolhas arquitetônicas, marcando o profundo entrelaçamento entre hinduísmo, budismo e a identidade cambojana. Construído durante o auge da dinastia Khmer no século XII, este extraordinário complexo de monumentos hindus e budistas ficou perdido para o mundo por muitos anos, escondido sob uma densa selva. O palácio do rei, feito de madeira, desapareceu há muito tempo, mas as ruínas que permanecem são surpreendentes, incluindo o templo piramidal de Bayon, com as enormes cabeças esculpidas que se tornaram um símbolo icônico da área arqueológica de Angkor.

O Templo Bayon
No coração de Angkor Thom está o Templo Bayon, um dos lugares mais fascinantes que já visitamos. Construído como templo estatal de Jayavarman VII, ele sintetiza a transição religiosa do império: um monumento budista com inúmeras referências hindus. Suas famosos torres com mais de 200 rostos esculpidos, provavelmente representando o rei como Avalokiteshvara, nos observam de todos os ângulos, criando uma atmosfera quase hipnótica. Avalokiteshvara é um dos bodhisattvas mais importantes do budismo, especialmente do budismo Mahayana. Ele representa a compaixão infinita e o compromisso de aliviar o sofrimento de todos os seres antes de alcançar a iluminação final. Os baixos relevos registram cenas do cotidiano, batalhas e cerimônias, funcionando como um testemunho histórico de enorme valor. Essa mistura de espiritualidade, política e arte transforma o Bayon em um dos símbolos máximos do orgulho cambojano.

As Galerias do Bayon
Ao explorar os corredores estreitos e as plataformas elevadas, percebemos como o Bayon foi desenhado para ser um labirinto espiritual. Cada torre revela novos rostos sorridentes, e cada parede traz histórias diferentes, desde mercados da era angkoriana até confrontos com o Reino de Champa. Essa narrativa esculpida em pedra reforça a importância do templo como expressão de poder e devoção. Apesar de suas assimetrias e da aparência quase caótica, o Bayon mantém uma harmonia que só a arquitetura sagrada consegue produzir. A combinação entre misticismo budista e mitologia hindu torna o templo um marco fundamental para entender a complexidade cultural da região.


Ta Prohm, A Natureza Retoma o Templo
Seguimos então para Ta Prohm, conhecido como “templo da selva”, um dos templos mais fotogênicos e emblemáticos de todo o complexo de Angkor. Diferente de outros monumentos restaurados, Ta Prohm foi preservado em seu estado “descoberto”, com raízes gigantescas envolvendo portas, paredes e galerias. Revela como a selva e o tempo retomaram lentamente o território do Império Khmer após sua decadência. Caminhar por Ta Prohm é testemunhar o encontro dramático entre arquitetura e natureza, onde as árvores parecem proteger e, ao mesmo tempo, consumir as construções. Ali, a sensação é de estar dentro de uma cápsula arqueológica viva.

A História e o Legado de Ta Prohm
Construído também por Jayavarman VII como um grande mosteiro budista, Ta Prohm já abrigou milhares de pessoas, entre monges, estudantes e servidores. Era um dos centros educacionais e espirituais mais importantes do reino. Hoje, suas ruínas entrelaçadas pela floresta contam uma história de abandono, resistência e transformação. As referências budistas, combinadas com elementos hindus herdados de dinastias anteriores, reforçam a relação profunda entre o Camboja e as tradições religiosas da Índia.

Angelina Jolie esteve aqui em Tomb Rider
Ta Prohm se tornou mundialmente famoso após aparecer no cinema, em Lara Croft: Tomb Raider (2001), estrelado por Angelina Jolie. O filme usou Ta Prohm como um dos cenários centrais. As árvores gigantes envolvendo as ruínas e o aspecto “engolido pela selva” tornaram-se imagens icônicas e despertaram o interesse global por Angkor. mas sua real beleza está na autenticidade do cenário, onde tudo parece estar exatamente como foi encontrado pelos exploradores franceses no século XIX.

O Orgulho do Camboja e a Memória do Império
Visitando Angkor Thom, Bayon e Ta Prohm, percebemos que o conjunto de Angkor não é apenas um destino turístico, mas um símbolo nacional. Ele está presente na bandeira do país, na identidade do povo e na narrativa histórica que os cambojanos preservam com orgulho. O Império Khmer, que dominou a região por séculos, deixou um legado arquitetônico e espiritual de proporções raras no mundo. Suas construções revelam a habilidade dos artesãos, a força da religião e o intercâmbio cultural com a Índia, que introduziu mitos, iconografias e estilos que perduram até hoje. Angkor é, sem dúvida, uma das maiores expressões de civilização que já conhecemos.

Muita chuva na visita aos templos
Foi o primeiro dia que pegamos chuva na Indochina. Foi intensa, não deu trégua. À noite, após um dia de passeios, assistimos a um espetáculo de dança Apsara, a tradicional arte cambojana que une música, trajes ornamentados e movimentos graciosos, encerrando o dia com um jantar de especialidades locais.


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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


