Vivendo de acordo com a maré no Delta do Mekong
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- joaquimnery
- 27 de novembro de 2025
- Ásia Super Destaque Vietnã
6 de outubro de 2025
Um passeio pela Ilha Gieng
À tarde fomos para a Ilha Gieng, no coração do Delta do Rio Mekong, um refúgio de paz e simplicidade. O acesso é feito por pequenas embarcações que deslizam lentamente entre os canais, cercados por coqueiros e campos férteis. A vida na ilha segue um ritmo tranquilo, marcada pela agricultura, pelo som das cigarras e pelo sorriso acolhedor dos moradores. Caminhar por suas trilhas é observar o Vietnã rural em sua forma mais pura, casas simples, hortas cuidadas e templos antigos. A presença francesa ainda pode ser sentida nas igrejas coloniais, lembrando o passado missionário da região. É um passeio que combina natureza, história e espiritualidade.

A formação do Delta do Rio Mekong
O Delta do Rio Mekong é uma das formações geológicas mais impressionantes do Sudeste Asiático, resultado de milhões de anos de sedimentação contínua trazida pelas águas do Mekong desde o Himalaia. Ao longo do tempo, o rio transportou areia, argila e minerais que, ao se acumularem em sua foz, formaram um vasto e fértil delta, uma verdadeira “terra construída pelo rio”. Essa região, que se estende por cerca de 40 mil km², é responsável por grande parte da produção agrícola do Vietnã, especialmente do arroz, e abriga uma complexa rede de canais e ilhas.


As ilhas do Delta
Durante a caminhada pela Ilha Gieng, tivemos uma “aula” com o nosso guia, Hong, sobre a geografia do Vietnã. As ilhas do delta surgem justamente desse processo de sedimentação. Com o acúmulo de detritos fluviais e a lenta expansão do terreno sobre o mar, pequenas porções de terra se elevam e se transformam em ilhas habitáveis, onde comunidades se estabeleceram há séculos. Esse fenômeno, porém, é dinâmico: enquanto novas ilhas se formam, outras sofrem erosão causada pelas correntes e pelas mudanças climáticas, alterando constantemente o mapa do delta e influenciando a vida de milhões de pessoas que dependem dele.

Os chapéus vietnamitas
Na Ilha Gieng, circulamos de tuk tuk pelas estradinhas sombreadas, cercadas por plantações e vilarejos tranquilos. Em um dos pontos da visita, paramos para observar artesãos confeccionando os tradicionais chapéus vietnamitas. O trabalho é delicado e minucioso: as finas tiras de bambu são entrelaçadas e cobertas com folhas secas, moldadas com paciência e precisão. Cada chapéu carrega a simplicidade e a identidade cultural do Vietnã, símbolo do dia a dia rural e da elegância discreta de seu povo.


O Mosteiro Franciscano da Ilha Gieng
Na Ilha Gieng, visitamos também o Mosteiro Franciscano, um dos lugares mais serenos e marcantes da região. Fundado por missionários franceses no século XIX, o mosteiro surgiu a partir da chegada dos primeiros franciscanos à região do Delta do Mekong, que buscavam evangelizar comunidades isoladas e oferecer assistência espiritual e educacional. Sua arquitetura, inspirada nos modelos europeus, combina simplicidade colonial com elementos locais, criando uma harmonia única com o ambiente tropical. Cercado por jardins e palmeiras, o local transmite uma atmosfera de paz e recolhimento. O som dos sinos, o canto das aves e o acolhimento dos monges reforçam o sentido de espiritualidade e continuidade histórica que o mosteiro carrega há mais de um século.

A produção artesanal dos barcos sampana
Durante o passeio pela Ilha Gieng, conhecemos um pequeno estaleiro dedicado à produção artesanal dos barcos sampana, embarcações tradicionais do Delta do Mekong. Esses barcos são feitos à mão por artesãos locais, são moldados em madeira leve, cuidadosamente curvada e impermeabilizada com resinas naturais. Cada detalhe, do formato do casco às remadas, segue técnicas transmitidas de geração em geração, refletindo séculos de convivência entre o homem e o rio. As sampanas são o principal meio de transporte nas águas do Mekong, usadas para pesca, comércio e deslocamentos diários. Observar sua fabricação é testemunhar a continuidade de um ofício que ainda sustenta a vida e a cultura da região.

O efeito das marés sobre o Delta do Mekong
Durante a visita à Ilha Gieng, fomos surpreendidos pelo efeito da maré durante a lua cheia, que faz a água subir rapidamente e muda completamente o cenário na margem do rio. A amplitude das marés no delta pode chegar a mais de 3 metros, influenciando o ritmo do rio e a vida das comunidades ribeirinhas. Durante a maré alta, as águas invadem os campos e os canais mais estreitos, cobrindo margens e passagens, enquanto na maré baixa, revelam bancos de areia e raízes de mangue. Essa oscilação natural, guiada pela atração lunar, é essencial para a fertilidade do solo e o equilíbrio ecológico da região. O povo do Mekong aprendeu, ao longo dos séculos, a viver em harmonia com essas variações, ajustando a agricultura, a pesca e o transporte ao pulso constante das marés.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


