A “Terra do Drácula”
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- joaquimnery
- 24 de outubro de 2026
- Europa Romênia Super Destaque
25 de setembro de 2026
O Príncipe Vlad III
A imagem de Brasov, na Romênia, é normalmente associada à do Conde Drácula. Por isso estávamos lá, apesar de entender rapidamente, que Brasov tem muito mais história e charme que o “Vampiro” da Transilvânia. A história do príncipe Vlad III, conhecido como Vlad Țepeș, “o Empalador”, é muito mais interessante do que a lenda do Drácula que acabou associada a ele. Ele nasceu por volta de 1431, provavelmente em Sighișoara, na Transilvânia, e governou a Valáquia, região situada ao sul da Transilvânia, por diferentes períodos no século XV.

As disputas pelo trono da Valáquia
Seu pai, Vlad II Dracul, fazia parte da Ordem do Dragão, uma ordem de cavalaria cristã. Daí surgiu o nome Drăculea, que significa “filho de Dracul”, que séculos depois seria aproveitado pelo escritor irlandês Bram Stoker, para criar o romance Drácula. Ainda jovem, Vlad e seu irmão Radu foram entregues como reféns ao Império Otomano, como garantia da fidelidade política de seu pai. Depois de retornar, Vlad envolveu-se nas disputas pelo trono da Valáquia e tornou-se conhecido pela extrema violência utilizada contra os seus inimigos, para consolidar seu poder.

O Empalador
O apelido Țepeș deriva da palavra romena țeapă, que significa estaca. O empalamento era uma forma de execução conhecida na época, mas Vlad passou a ser intimamente associado a ela. Seus adversários, criminosos e prisioneiros de guerra eram enfiados em estacas, do ânus até o pescoço, expostos nos campos e executados dessa maneira. Muitos tinham olhos devorados pelos corvos. Relatos assustadores sobre milhares de pessoas empaladas contribuíram para construir sua reputação de crueldade. Parte dessas histórias foi difundida por panfletos germânicos do século XV, alguns produzidos por grupos saxões que eram adversários políticos e econômicos de Vlad. Por isso, historiadores tratam com cautela os números e alguns dos episódios mais macabros atribuídos a ele.

Vlad contra o Império Otomano
Na Romênia, Vlad também é lembrado por outro aspecto: sua resistência ao avanço otomano. Em 1462, enfrentou o exército do sultão Mehmed II, conquistador de Constantinopla. Um dos episódios mais conhecidos foi o “Ataque Noturno”, quando as tropas de Vlad atacaram de surpresa o acampamento otomano. Essa resistência transformou Vlad em personagem importante da narrativa histórica romena, embora isso conviva em paralelo com a documentação de sua brutalidade.

Onde entra o Conde Drácula?
A associação entre Vlad Tepes e o vampiro surgiu no século XIX. O escritor irlandês Bram Stoker publicou o romance Drácula em 1897. Ele encontrou referências ao nome Dracula, O Filho de Dracul, em suas pesquisas sobre a região, mas o personagem título do seu romance não significava uma biografia de Vlad Țepeș. A ligação direta entre os dois foi fortalecida no século XX pela literatura, pelo cinema e pelo turismo. Existe outra confusão frequente: o Castelo de Bran, próximo a Brașov, é vendido turisticamente como “Castelo do Drácula”, mas sua relação histórica com Vlad, “O Empalador” é bastante limitada. A fortaleza associada a ele é Poenari, na Valáquia. Existem grandes diferenças entre o Vlad Tepes, o Drácula literário e o Drácula turístico. A Transilvânia aproveita bem essas narrativas.

O livro Drácula de Bram Stolke
O livro Drácula, de Bram Stoker se tornou uma das obras mais influentes da literatura de terror. Curiosamente, o escritor irlandês nunca visitou a Romênia. O romance começa na região da Transilvânia. O jovem advogado inglês Jonathan Harker viaja para a Transilvânia para encontrar o misterioso “conde Drácula”, que deseja comprar uma propriedade na Inglaterra. Harker chega ao castelo do conde e percebe gradualmente que está aprisionado. Drácula é um ser sobrenatural que se alimenta de sangue, não envelhece e possui diversos poderes. O “conde” parte para a Inglaterra, onde a história passa a envolver outros personagens que percebem a verdadeira natureza de Drácula e inicia uma perseguição que termina novamente na região dos Cárpatos.

Um romance contado por documentos
Uma característica interessante foi a forma como Stoker escreveu a obra. Em Drácula não existe um narrador único. A história é construída através de diários, cartas, telegramas, recortes de jornais e registros dos personagens. Isso dava ao leitor do final do século XIX uma sensação quase documental, como se estivesse reconstruindo acontecimentos que haviam ocorrido. Stoker pesquisou bastante sobre a Europa Oriental sem nunca ter viajado para lá. Durante suas pesquisas encontrou referências ao nome Drácula e a Vlad III da Valáquia, Vlad Țepeș, o Empalador. O nome chamou sua atenção e acabou substituindo o que inicialmente imaginava para seu personagem, Conde Wampyr.

O Castelo do Drácula
Outro mito surgiu posteriormente. Stoker descreve um castelo isolado nos Cárpatos, mas não há evidência de que tenha usado o Castelo de Bran como modelo. A associação entre Bran, Vlad Țepeș e Drácula foi fortalecida sobretudo no século XX, quando o turismo percebeu que aquele castelo medieval, dramaticamente construído sobre um rochedo, correspondia muito bem ao imaginário criado pelo romance e pelo cinema. Vlad Țepeș foi um personagem histórico; Drácula foi uma criação literária de Bram Stoker; e Bran é um castelo medieval real que acabou associado aos dois.

O Castelo de Bran, aos pés dos Cárpatos
Bran é uma pequena localidade da Transilvânia, a 30 quilômetros de Brașov, situada em uma passagem natural entre as montanhas dos Cárpatos. Historicamente, essa localização foi fundamental: o “Passo de Bran” era uma importante ligação comercial e estratégica entre a Transilvânia e a Valáquia. No local foi erguido um castelo para garantir a cobrança de impostos para aqueles que queriam passar por ali. Hoje, a cidade vive principalmente em torno do turismo. Restaurantes, pousadas, lojas e mercados ocupam os arredores de sua principal atração, o Castelo de Bran, cuja imagem sobre um rochedo domina o lugar.

Quando foi construído o Castelo de Bran
A fortaleza começou a tomar sua forma atual no século XIV. Em 1377, quando o rei Luís I da Hungria autorizou os saxões de Brașov a construir um castelo de pedra naquele ponto estratégico. Sua função era essencialmente militar e aduaneira, controlando uma das principais rotas através dos Cárpatos. A arquitetura se adequou ao lugar: construído sobre uma elevação rochosa, o castelo possui torres, corredores estreitos, escadas, pequenos ambientes e um pátio interno. Ao longo dos séculos passou por diversas transformações. O Vlad Tepes não viveu em Bran. O Castelo se tornou mundialmente famoso pois começou a ser divulgado como “O Castelo do Drácula”, mas sua relação com Vlad Țepeș, o Empalador, é bastante frágil. Não existem evidências de que Vlad tenha vivido no castelo. No máximo, há referências a passagens pela região durante suas campanhas.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


