Um ícone da cultura espanhola
Durante a nossa estadia em Madri, decidimos conhecer um dos ícones mais emblemáticos — e polêmicos — da cultura espanhola: a Praça de Touros Las Ventas, considerada a maior da Europa e a mais bonita da Espanha. Com sua arquitetura impressionante, repleta de arcos em forma de ferradura, o espaço impõe respeito e reverência. Ali acontecem as principais touradas em Madri, chamadas de “corridas de touros”.
Eu e Kim chegamos cedo para garantir nosso lugar. Pouco depois, conseguimos convencer Tess e Mônica a se juntarem a nós com a promessa de um bom jantar ao final do programa. Não sabíamos, no entanto, o quanto essa experiência nos marcaria de forma intensa.
O ritual que antecede a violência
Quando o espetáculo começou, confesso que fiquei impressionado com a pompa e o ritual. Cavaleiros em seus belos cavalos e toureiros com trajes típicos entraram na arena ao som da multidão. A entrada do touro é um momento de impacto: o animal surge imponente, cheio de vida, força e energia.
Mas logo vem a decepção. O touro já entra ferido, com um instrumento cravado no dorso, sangrando. É o início de uma sequência que, aos poucos, vai drenando sua vitalidade.
O espetáculo se revela um ato de covardia
Os cavaleiros se aproximam e lançam lanças no dorso do touro, uma após a outra. O objetivo é claro: enfraquecer o animal. Só quando ele está visivelmente debilitado, é que o toureiro volta à arena para fazer as manobras mais arriscadas, que agora não são tão arriscadas assim. O touro já não tem mais forças para reagir.
O toureiro faz algumas performances, mas rapidamente se afasta para dar espaço aos cavaleiros. São chamados de picadores e o objetivo é, enfiar lanças no dorso do touro, diminuindo cada vez mais a sua força. O touro ataca o cavalo ferozmente e esse é um fator que determina a sua qualidade para a tourada.
Depois que o touro está visivelmente debilitado é que o toureiro se aproxima e faz manobras mais “corajosas” com o animal. Faz pose de coragem, mas se esconde no esgotamento a que o touro foi exposto.
Na sequência, entram os banderilleros, são toureiros, cuja função é enfiar lanças enfeitadas no dorso do touro, até que o animal totalmente debilitado começa a se entregar e desiste de lutar.
O golpe final vem em seguida. O toureiro crava uma espada entre as vértebras do animal, que morre subitamente diante de uma plateia em silêncio. Uma carroça entra e o arrasta para fora. E o que deveria ser um espetáculo deixa no ar um sentimento de tristeza e impotência.
Tess chorava sem parar. Todos ficamos em choque. A ideia inicial era assistir a sete touradas naquela noite, mas saímos após a primeira. Não fazia sentido permanecer. Não valeria a pena.
Refletindo sobre tradições e escolhas
A tourada em Las Ventas foi uma experiência intensa. Uma mistura de cultura, história, estética e brutalidade. É impossível sair de lá indiferente. Apesar de compreender a importância histórica das touradas para o povo espanhol, a sensação que ficou foi de um espetáculo marcado pela dor, onde a beleza do ritual não é suficiente para justificar o sofrimento imposto ao animal.
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