O Castelo de Peles em Sinaia
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- joaquimnery
- 29 de outubro de 2026
- Europa Romênia Super Destaque
26 de setembro de 2026
De Brașov a Bucareste pelos Cárpatos
No terceiro dia da nossa viagem pela Romênia, deixamos Brașov e seguimos em direção a Bucareste, atravessando mais uma vez as paisagens dos Cárpatos. Escolhemos o caminho que passa por Sinaia, onde fica o Castelo de Peleș, uma das principais atrações históricas do país. A estrada acompanha vales cercados por montanhas cobertas por extensas florestas, passando por pequenas cidades e áreas que, no inverno, se transformam em importantes destinos de esqui. Aos poucos, abandonamos a Transilvânia e avançamos em direção à Valáquia. Esse trecho da estrada permite observar de perto a geografia que ajudou a moldar a própria história da Romênia. Nossa principal parada no caminho foi na cidade de Sinaia para conhecer o Castelo de Peleș.

Sinaia, entre a Transilvânia e a Valáquia
A origem da cidade está ligada ao Mosteiro de Sinaia, fundado no final do século XVII pelo nobre romeno Mihail Cantacuzino. Depois de realizar uma peregrinação à Terra Santa, ele visitou o Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, e decidiu construir um mosteiro inspirado naquela experiência. O nome Sinaia deriva justamente do Monte Sinai. Durante muito tempo, havia apenas o mosteiro e pequenos povoados nessa região montanhosa. A grande transformação ocorreu no século XIX, com a chegada da família real romena.

A pequena igreja do Mosteiro de Sinaia
A Igreja Velha do Mosteiro de Sinaia é pequena e faz parte do núcleo original do mosteiro, fundado no final do século XVII por Mihail Cantacuzino, depois de sua peregrinação ao Monte Sinai, na Terra Santa. Foi justamente dessa referência bíblica que surgiram o nome do mosteiro e, posteriormente, o nome da própria cidade de Sinaia. Construída entre 1690 e 1695, a igreja está cercada pelas antigas dependências monásticas. Sua arquitetura segue a tradição ortodoxa da Valáquia. O interior chama atenção pelas pinturas religiosas e afrescos, que seguem a tradição da Igreja Ortodoxa. A dimensão reduzida do templo contrasta com a monumentalidade do Castelo de Peleș, construído ali perto, quase dois séculos depois. Visitamos também a Igreja Nova, construída no século XIX ao lado do núcleo original do mosteiro, entre 1842 e 1846, quando o antigo templo já era pequeno para atender à comunidade e ao crescente número de visitantes.

Sinaia: de mosteiro a cidade da aristocracia
Durante muito tempo, a região permaneceu relativamente isolada, cercada por florestas e montanhas. Sua transformação começou na segunda metade do século XIX, quando o príncipe Carol, futuro rei Carol I, conheceu a região e decidiu construir ali sua residência de verão. A presença da corte atraiu integrantes da aristocracia, diplomatas, políticos e visitantes estrangeiros. Surgiram hotéis, restaurantes e residências elegantes. A ferrovia entre Bucareste e Brașov também contribuiu para o desenvolvimento da cidade. Sinaia tornou-se um dos principais destinos de veraneio da elite romena, preservando até hoje essa ligação com a história da monarquia.

O Castelo de Peleș e a escolha de Carol I
Nossa visita ao Castelo de Peleș foi um dos pontos altos desse trecho da viagem. Sua construção começou em 1873, por iniciativa de Carol I, que havia assumido o governo romeno em 1866 e se tornaria o primeiro rei do país em 1881. Encantado com a paisagem dos Cárpatos, escolheu aquele local para construir uma residência de verão. O projeto reuniu arquitetos e artesãos de diferentes países europeus, resultando em um palácio de inspiração neo-renascentista alemã. As fachadas trabalhadas, as torres, os telhados inclinados e os detalhes em madeira lembram construções da Europa Central. Cercado por jardins, montanhas e florestas, Peleș parece perfeitamente integrado à paisagem. Embora seja chamado de castelo, foi concebido principalmente como residência real e espaço para recepções oficiais.

A riqueza dos interiores de Peleș
A arquitetura exterior impressiona, mas foi principalmente o interior que nos surpreendeu. Ao percorrer os salões, encontramos uma extraordinária quantidade de madeira entalhada, tetos trabalhados, vitrais, tapeçarias, esculturas, pinturas, armas e mobiliário. Cada ambiente apresenta características próprias, refletindo influências alemãs, italianas, francesas, espanholas e orientais. O monumental Salão de Honra, revestido de painéis de madeira esculpida, está entre os espaços mais impressionantes. A riqueza dos detalhes revela o trabalho de artesãos altamente especializados e o desejo de Carol I de construir uma residência à altura das grandes cortes europeias.

Um palácio surpreendentemente moderno
Outro aspecto que chamou nossa atenção foi a tecnologia empregada na construção. Peleș estava entre os palácios europeus mais modernos de sua época. Contava com produção própria de eletricidade, aquecimento central, elevador e outras instalações avançadas para o final do século XIX. Até o teto de vidro do Salão de Honra possuía um mecanismo que permitia sua abertura. Essa preocupação com a modernidade contrastava de maneira interessante com a decoração histórica dos ambientes. Enquanto os salões reproduziam estilos arquitetônicos de diferentes períodos europeus, o edifício incorporava recursos técnicos bastante inovadores. Peleș representava, portanto, não apenas o gosto artístico da família real, mas também o projeto de modernização que Carol I procurava desenvolver na Romênia.

Carol I e a construção da Romênia moderna
A história do castelo está diretamente relacionada à formação do Estado romeno. Quando Carol I chegou ao poder, em 1866, os principados da Moldávia e da Valáquia já haviam iniciado sua união política, em 1859. Sua principal contribuição foi consolidar as instituições, fortalecer o Exército e buscar o reconhecimento internacional do país. A Romênia conquistou sua independência do Império Otomano em 1877, reconhecida internacionalmente no ano seguinte, e tornou-se um reino em 1881. Carol I governou até 1914, quando morreu no próprio Castelo de Peleș, pouco depois do início da Primeira Guerra Mundial. Não foi ele o responsável pela grande expansão territorial de 1918, mas seu reinado estabeleceu as bases políticas e institucionais que permitiram a consolidação da Romênia moderna.

Fernando I, a Rainha Maria e a Grande Romênia
Com a morte de Carol I, o trono passou para seu sobrinho Fernando I, casado com a Rainha Maria. Durante seu reinado, a Romênia participou da Primeira Guerra Mundial e passou por profundas transformações. Em 1918, com o fim do conflito, a Transilvânia e outros territórios foram incorporados ao país, dando origem à Grande Romênia. Próximo ao Castelo de Peleș encontra-se o Pelișor, uma residência menor construída para Fernando e Maria. A rainha também desenvolveu uma ligação especial com o Castelo de Bran, que visitamos durante nossa passagem pela Transilvânia. Atualmente, o coração de Maria, preservado em um relicário, encontra-se no Pelișor, enquanto seu corpo está sepultado em Curtea de Argeș. Essas residências ajudam a contar diferentes capítulos da história da família real romena.

O fim da monarquia e a transformação do Castelo em museu
Depois da morte de Fernando I, em 1927, seu neto Miguel I assumiu o trono ainda criança, sob uma regência. Em 1930, seu pai, Carol II, retornou ao país e tornou-se rei. Dez anos depois, Carol II abdicou, e Miguel I voltou ao trono. Em 1947, sob forte pressão do governo dominado pelos comunistas, Miguel foi obrigado a abdicar, encerrando a monarquia romena. As propriedades reais foram nacionalizadas, e o Castelo de Peleș acabou transformado em museu. Após a queda do comunismo, em 1989, ocorreram processos de restituição envolvendo a antiga família real. Atualmente, Peleș permanece aberto à visitação, preservando seus salões, coleções e grande parte da decoração original.

Sinaia e o turismo de inverno nos Cárpatos
Além da importância histórica, Sinaia tornou-se um dos principais destinos de montanha da Romênia. No século XX, a cidade desenvolveu sua estrutura turística, com teleféricos, hotéis e pistas de esqui nas montanhas Bucegi. Embora a Romênia não possua estações de inverno com a dimensão das encontradas nos Alpes, os Cárpatos atraem muitos visitantes, especialmente romenos e turistas dos países vizinhos. A região combina esportes de inverno, caminhadas, florestas e cidades históricas. O corredor entre Brașov, Sinaia e Bucareste tornou-se um importante eixo turístico, aproveitando uma passagem natural entre a Transilvânia e a Valáquia.

As florestas e a geografia da Valáquia
Ao deixar Sinaia e continuar em direção a Bucareste, observamos a transição entre as montanhas dos Cárpatos e as áreas mais baixas da Valáquia. As encostas apresentam extensas florestas temperadas, cuja vegetação varia conforme a altitude. Nas áreas inferiores predominam árvores de folhas largas, incluindo carvalhos, enquanto nas regiões mais elevadas aparecem outras formações florestais. Essas áreas constituem importantes refúgios para a fauna europeia, incluindo ursos-pardos, lobos e linces. Historicamente, os Cárpatos funcionaram como uma barreira natural entre a Transilvânia e a Valáquia, tornando seus vales e passagens estratégicos para o comércio, as migrações e os exércitos. Conhecer esse palácio foi uma oportunidade de compreender um período decisivo da história romena, marcado pela independência, pela consolidação da monarquia e pela modernização do país.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


