Uma lição que mudou a forma de viajar
- 191 Views
- joaquimnery
- 23 de julho de 2026
- América Argentina Chile Super Destaque
Junho de 1990
Uma conversa comum, mas que mudou tudo
Toda grande viagem deixa lembranças especiais. Algumas vêm das paisagens, outras das pessoas que encontramos pelo caminho. Durante nossa primeira viagem internacional, em 1990, vivi uma dessas experiências que permanecem conosco por toda a vida. A Travessia dos Lagos Andinos havia sofrido alterações por causa de um deslizamento de terra que interrompeu parte do percurso original. Alguns passageiros estavam decepcionados, afinal muitos haviam escolhido aquele roteiro justamente para realizar a travessia clássica entre Chile e Argentina. Como costumava organizar grupos e já trabalhava com turismo, acabei ajudando a intermediar as conversas entre a operadora e os viajantes. Foi nesse contexto que ouvi uma frase aparentemente simples, mas que mudaria definitivamente minha maneira de enxergar o mundo.

O sonho de uma vida inteira
Entre os integrantes do grupo havia uma professora de Geografia já aposentada. Percebia-se que ela conhecia profundamente os lugares que estávamos visitando e demonstrava um enorme entusiasmo diante das paisagens da Cordilheira dos Andes. Ainda assim, era uma das pessoas mais frustradas com a mudança no roteiro. Em determinado momento, conversando calmamente, procurei explicar que o restante da viagem continuava extraordinário e que ainda viveríamos experiências inesquecíveis. Ela ouviu atentamente e respondeu com uma serenidade que jamais esquecerei.
— “Não é apenas pela travessia. É porque esta foi uma viagem que sonhei durante muitos anos. Hoje já não tenho mais tempo para repetir destinos. Quero conhecer lugares novos enquanto ainda posso.”
Foram poucas palavras. Mas produziram um impacto enorme.

O tempo também faz parte da viagem
Até aquele momento, nunca havia pensado na viagem sob essa perspectiva. Sempre imaginei que o importante era conhecer os lugares, independentemente da ordem ou do momento. A observação daquela professora fez surgir uma reflexão completamente diferente: viajar também significa administrar o tempo da própria vida. Os destinos do mundo são praticamente infinitos. Já o nosso tempo para conhecê-los não é. Aquela conversa me mostrou que cada escolha representa também uma renúncia. Sempre que voltamos várias vezes ao mesmo lugar, talvez estejamos deixando de conhecer outro destino que poderia nos surpreender igualmente.

Uma filosofia que passou a orientar nossas escolhas
Desde aquela conversa, Mônica e eu passamos a adotar uma filosofia que continua presente em praticamente todas as nossas viagens. Sempre que possível, procuramos conhecer um destino novo antes de repetir um antigo. Isso não significa deixar de revisitar lugares especiais. Alguns merecem, sim, ser vividos novamente. Mas buscamos manter um equilíbrio entre revisitar aquilo que amamos e descobrir aquilo que ainda não conhecemos. Foi essa decisão que nos levou, ao longo das décadas seguintes, a percorrer dezenas de países, conhecer culturas completamente diferentes e viver experiências que jamais teríamos imaginado naquela primeira viagem pela América do Sul.

O mundo é muito maior do que imaginamos
Quanto mais viajamos, mais percebemos o tamanho da nossa própria ignorância. Antes de conhecer um país, costumamos criar imagens simplificadas sobre ele. A realidade, quase sempre, revela uma riqueza muito maior. Descobrimos que existem diferentes formas de viver, pensar, celebrar, cozinhar, construir cidades e se relacionar com a natureza. Cada destino amplia um pouco nossa visão de mundo. Talvez essa seja uma das maiores virtudes das viagens: elas não apenas nos mostram novos lugares, mas também desmontam preconceitos, desafiam certezas e nos tornam pessoas mais abertas ao diferente.

Viajar também é aprender a lidar com os imprevistos
Curiosamente, a lição daquela professora surgiu justamente por causa de um imprevisto. O deslizamento de terra que alterou parte da Travessia dos Lagos Andinos parecia, inicialmente, uma grande frustração. No entanto, foi ele que proporcionou uma das conversas mais marcantes da minha vida. Com o passar dos anos, percebi que praticamente todas as grandes viagens apresentam algum contratempo: mudanças climáticas, cancelamentos, atrasos, estradas interditadas ou alterações de roteiro. Em vez de estragar a experiência, muitas vezes esses acontecimentos acabam produzindo histórias ainda mais interessantes. Viajar é aceitar que nem tudo estará sob nosso controle. E talvez seja justamente isso que torna cada jornada única.

O verdadeiro souvenir que levamos para casa
Costumamos voltar das viagens carregando fotografias, pequenos objetos, livros ou lembranças compradas pelo caminho. Com o tempo percebi que os verdadeiros souvenirs são invisíveis. São as histórias que passamos a contar, as amizades que construímos, as emoções que experimentamos e os ensinamentos que carregamos para o resto da vida. A frase daquela professora de Geografia nunca mais saiu da minha memória. Ela passou a fazer parte da maneira como organizamos nossos roteiros e até da forma como compreendemos o próprio sentido de viajar.

Continuamos descobrindo o mundo. Um destino de cada vez
Mais de três décadas se passaram desde aquela conversa na Cordilheira dos Andes. Vieram novas viagens, novos continentes, novas culturas e centenas de experiências inesquecíveis. Ainda assim, sempre que começamos a planejar um novo roteiro, lembro daquele ensinamento que recebemos de uma companheira de viagem. Continuamos acreditando que vale a pena explorar o desconhecido, abrir espaço para novas paisagens e permitir que o mundo continue nos surpreendendo. Afinal, viajar nunca foi apenas uma forma de conhecer lugares. É uma maneira de aprender continuamente, de renovar a curiosidade e de compreender que a vida, assim como qualquer grande viagem, é feita muito mais pelos caminhos percorridos do que pelo destino final.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


