O genocídio do Camboja
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- joaquimnery
- 10 de dezembro de 2025
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9 de outubro de 2025
Uma escola transformada em prisão
Estávamos em Phnom Penh, a capital do Camboja, ancorados no porto do Rio Mekong, com o navio Mekong Jewel, que era o nosso transporte e hotel, durante os primeiros dias de visita à região da Indochina (Vietnã e Camboja). Após o café-da-manhã, seguimos de ônibus para uma excursão que nos levou à mais famosa prisão do Khmer Vermelho, a S-21, uma escola que foi transformada em prisão, centro de tortura e extermínio do regime do Khmer Vermelho, durante a ditadura do líder genocida Pol Pot.

O “Ninho da Serpente”
A expressão “Khmer Vermelho” remete a uma das maiores tragédias da história moderna do Camboja, mas suas raízes simbólicas remontam ao passado glorioso do Império Khmer (séculos IX a XV), que construiu templos monumentais como Angkor Wat e dominou grande parte do Sudeste Asiático. Séculos depois, após guerras, colonização francesa e instabilidade política, o país mergulhou em crises que abriram espaço para o radicalismo. O nome “Khmer Vermelho” surgiu como referência ao povo Khmer, herdeiro desse império e à cor associada ao comunismo revolucionário. Liderado por Pol Pot, o movimento buscava restaurar uma “pureza cambojana” idealizada, inspirada na autossuficiência agrícola e no passado grandioso do império. No entanto, o resultado foi um regime brutal (1975–1979), que destruiu o patrimônio cultural e humano do país, transformando a antiga glória Khmer em um dos períodos mais sombrios da história do Camboja.

A trajetória de Pol Pot
A trajetória de Pol Pot, nascido Saloth Sar, em 1925, ajuda a explicar como o Khmer Vermelho chegou ao poder no Camboja. Após uma juventude marcada por estudos em escolas budistas e instituições ligadas à elite rural, Pol Pot ganhou uma bolsa para estudar em Paris, no final dos anos 1940. Na França, aproximou-se de grupos marxistas, aderiu ao comunismo e passou a idealizar uma revolução agrária radical para seu país. De volta ao Camboja no início dos anos 1950, integrou o pequeno Partido Comunista local, ainda clandestino, e começou a construir redes de apoio no interior do país, especialmente entre camponeses pobres.

A queda de Phnom Penh
A partir dos anos 1960, o cenário político cambojano se deteriorou: repressão interna, pobreza, rivalidades entre facções e a Guerra do Vietnã, que se espalhou pela fronteira. Bombardeios americanos em áreas rurais e o caos gerado pelo golpe de 1970, que depôs o príncipe Sihanouk e instalou o regime pró-ocidental de Lon Nol, criaram terreno fértil para que o movimento comunista ganhasse força. Com apoio do Vietnã do Norte e de populações rurais revoltadas, o Khmer Vermelho expandiu sua influência. Em 17 de abril de 1975, seus soldados entraram em Phnom Penh e tomaram o poder. Pol Pot instaurou um regime totalitário que aboliu cidades, dinheiro, escolas e religiões, tentando transformar todo o país em um enorme coletivo agrícola. A busca por uma “sociedade pura” levou ao extermínio de cerca de 1,7 milhão de pessoas, até que o Vietnã invadiu o Camboja em 1979 e derrubou o Khmer Vermelho.

O Camboja na Guerra do Vietnã
A participação do Camboja na Guerra do Vietnã foi complexa e, muitas vezes, involuntária. Embora oficialmente neutro, o país tornou-se passagem estratégica para os Vietcongs, que utilizaram a fronteira cambojana, especialmente a Trilha Ho Chi Minh e áreas remotas do leste, para acessar e atacar o Vietnã do Sul. Essas ações permitiam que tropas do Vietnã do Norte se abastecessem, descansassem e lançassem ofensivas sem cruzar diretamente zonas vigiadas pelo exército sul-vietnamita. A resposta dos Estados Unidos foi ampliar a guerra para território cambojano: primeiro com bombardeios secretos a partir de 1969, depois com invasões terrestres em 1970, numa tentativa de destruir bases comunistas. Esses ataques devastaram vilarejos rurais, deslocaram centenas de milhares de cambojanos e enfraqueceram ainda mais a estabilidade política do país, contribuindo para o colapso do governo de Lon Nol e abrindo caminho para a ascensão do Khmer Vermelho.

Pol Pot chegou ao poder
Pol Pot chegou ao poder em 1975, após anos de instabilidade política no Camboja e do desgaste causado pela Guerra do Vietnã. Aproveitando o caos gerado pelos bombardeios americanos e pelo enfraquecimento do governo de Lon Nol, os guerrilheiros do Khmer Vermelho avançaram sobre o país e tomaram Phnom Penh quase sem resistência. A ascensão de Pol Pot também foi fortalecida pela aliança com a China, que via no movimento cambojano um parceiro ideológico alinhado ao maoísmo e ofereceu apoio financeiro, militar e diplomático. Paralelamente, o Rei Norodom Sihanouk, deposto em 1970, desempenhou papel crucial: mesmo sem controlar o movimento, aceitou apoiá-lo no exílio para recuperar influência e enfraquecer o governo que o derrubou. Sua figura foi usada como símbolo de legitimidade para atrair apoio popular, embora, na prática, o Khmer Vermelho tenha seguido um caminho radical e totalmente independente após assumir o poder.

As atrocidades do Khmer Vermelho
O regime de Pol Pot promoveu um dos projetos mais radicais e violentos de engenharia social do século XX, eliminando qualquer pessoa que representasse conhecimento, pensamento crítico ou simples ligação com o mundo urbano. No Camboja do Khmer Vermelho, usar óculos, ter mãos sem calos, falar outra língua ou demonstrar educação bastava para ser acusado de “inimigo do povo” e executado. A ordem era destruir toda forma de cultura para criar uma sociedade camponesa “pura”. Enquanto os adultos eram assassinados em massa, as crianças eram separadas das famílias, recrutadas e doutrinadas, transformando-se em soldados e espiões do regime. O Khmer Vermelho também controlava rigidamente os relacionamentos: casamentos eram arranjados pelo Estado e os filhos pertenciam ao regime, não aos pais. O objetivo era romper qualquer vínculo afetivo ou familiar que competisse com a lealdade absoluta a Pol Pot.

O êxodo de Phnom Penh
O êxodo de Phnom Penh, imposto pelo Khmer Vermelho em abril de 1975, foi um dos momentos mais traumáticos da história do Camboja. Logo após tomar a capital, o regime ordenou que toda a população mais de 2 milhões de pessoas, abandonasse a cidade em poucas horas, sob a justificativa de que os EUA iriam bombardeá-la. Na verdade, tratava-se do primeiro passo do projeto de transformar o país em uma sociedade rural e agrícola. Idosos, doentes, crianças e famílias inteiras foram obrigados a caminhar por dias sob intenso calor, muitos morrendo pelo caminho. Hospitais foram esvaziados à força, pacientes retirados das macas, e todos enviados para aldeias coletivas no interior. Phnom Penh virou uma cidade fantasma, e o êxodo marcou o início de um dos períodos mais brutais do regime de Pol Pot, que buscava apagar qualquer traço de vida urbana ou intelectual no Camboja.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


