Quioto e Nara, as cidades históricas do Japão
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- joaquimnery
- 31 de maio de 2026
- Ásia Japão Super Destaque
09 de abril de 2026
A cidade de Kobe e o terremoto catastrófico
Chegamos a Kobe, no sudeste da ilha de Honshu, entre o mar e as montanhas Rokko. Essa situação urbana define a sua paisagem e organização espacial. A cidade se desenvolveu como um dos principais portos internacionais do Japão, com forte presença comercial e histórica ligação com o exterior. Kobe também ficou marcada pelo grande terremoto que aconteceu em 17 de janeiro de 1995 e que provocou grandes danos à sua infraestrutura e levou a um amplo processo de reconstrução. O tremor teve grande intensidade e causou danos significativos em áreas urbanas densas, afetando edifícios, vias elevadas e infraestrutura portuária. Parte das estruturas colapsou, e o funcionamento da cidade foi interrompido por dias. O impacto foi amplificado pela concentração urbana e pela proximidade do epicentro. Após o desastre, iniciou-se um amplo processo de reconstrução. Hoje, Kobe é uma cidade moderna, com áreas revitalizadas à beira-mar e um ambiente urbano dinâmico.

Abertura ao mundo e logística estratégica
O Porto de Kobe é um dos mais importantes do Japão e teve papel fundamental na abertura do país ao comércio internacional no século XIX. Tornou-se um dos principais pontos de entrada de mercadorias, pessoas e influências estrangeiras, contribuindo para o desenvolvimento econômico da região. Ao longo do tempo, o porto se modernizou, incorporando terminais de contêineres, infraestrutura logística avançada e áreas urbanas revitalizadas, como o Waterfront de Harborland. Após os impactos do terremoto de 1995, o porto foi reconstruído e retomou sua relevância. Hoje, combina atividade comercial intensa com espaços voltados ao turismo, refletindo a integração entre economia e cidade.

Um tour para Nara e Quioto
A localização do Porto de Kobe em relação a Nara e Quioto comandou o programa do dia. Apesar de não serem distâncias longas em termos absolutos, o deslocamento exige tempo e organização logística, especialmente considerando trânsito, embarque e desembarque e horários do navio. Isso reduziu o tempo disponível para explorar os destinos, exigindo um ritmo mais acelerado e menor permanência em cada ponto. Saímos do Azamara Pursuit e seguimos para visitar as cidades de Nara e Quioto. Nara foi capital do Japão entre 710 e 794. Foi a primeira capital permanente do país, marcando a consolidação de estruturas políticas e administrativas inspiradas no modelo chinês. Já Quioto tornou-se capital em 794 e manteve esse status por mais de mil anos, até 1868. Nesse longo período, Quioto foi o centro político, cultural e imperial do Japão, mesmo quando o poder real esteve nas mãos dos xoguns em outras cidades.

A origem histórica de Nara
Nara desempenhou papel central na formação política e cultural do país. Localizada na ilha de Honshu, a cidade preserva importantes templos e santuários que refletem esse período inicial da história japonesa. Entre os destaques está o Templo Todai-ji, que abriga uma das maiores estátuas de Buda em bronze do mundo. O Parque de Nara também chama atenção pela presença de cervos que circulam livremente, integrados ao ambiente urbano. Apresenta um ritmo mais tranquilo, com forte preservação do patrimônio histórico, oferecendo uma leitura clara das origens do Japão.

Budismo e xintoísmo: diferenças no Japão
No Japão, o budismo e o xintoísmo convivem de forma complementar, mas possuem origens e práticas distintas. O xintoísmo é a religião nativa do Japão, baseada no culto aos kami (espíritos ligados à natureza, aos antepassados e a elementos do cotidiano). Não possui fundador nem textos sagrados centrais, e está muito associado a rituais de purificação, celebrações sazonais e à identidade cultural japonesa. Seus espaços são os santuários, marcados pelos portais torii. Já o budismo, originado na Índia e introduzido no Japão via China e Coreia, é uma filosofia religiosa voltada para a compreensão da vida, do sofrimento e do ciclo de renascimento. Possui ensinamentos estruturados, templos e práticas como meditação. Muitos japoneses participam de ambos: o xintoísmo ligado ao cotidiano e o budismo mais associado a reflexões espirituais e rituais ligados à morte.

O gigantesco Tōdai-ji
Visitamos o Templo Tōdai-ji, um dos mais importantes templos budistas do Japão. O complexo abriga o Daibutsuden, um dos maiores edifícios de madeira do mundo, onde está a grande estátua de Buda em bronze (Daibutsu). A construção chama atenção, tanto pela dimensão do salão quanto pela presença da imagem central. O espaço foi concebido para transmitir imponência e significado religioso, refletindo a importância do budismo na formação cultural japonesa. Ao percorrer o templo, observamos a combinação entre arquitetura, espiritualidade e organização do espaço, em um dos principais marcos históricos do país.

Os Budas do Daibutsuden
No Daibutsuden, o pavilhão principal do Templo Tōdai-ji, o destaque é o Grande Buda (Daibutsu), que representa Vairocana, uma figura central do budismo, associada ao universo e à iluminação. Ao redor da estátua principal, há outras figuras que complementam o conjunto, incluindo bodhisattvas e protetores, cada um com funções simbólicas dentro da tradição budista. As posições das mãos e as expressões das esculturas transmitem ideias como proteção, sabedoria e equilíbrio. O conjunto não é apenas decorativo, mas organizado para representar conceitos espirituais, reforçando o papel do templo como espaço de contemplação e ensino religioso.

Os cervos de Nara
Os cervos que circulam livremente em Nara, especialmente no Parque de Nara, são considerados mensageiros divinos na tradição xintoísta. Por esse motivo, são protegidos e fazem parte do cotidiano da cidade há séculos. Durante a visita, é comum interagir com os animais, que se aproximam dos visitantes, principalmente em busca dos biscoitos específicos vendidos no local (shika senbei). Alguns chegam a “inclinar a cabeça”, comportamento associado à expectativa de alimento. A presença dos cervos cria uma relação particular entre natureza, cultura e espaço urbano, tornando Nara um dos destinos mais característicos do Japão.

Kasuga Taisha: o santuário xintoísta de Nara
Após a visita ao Templo Tōdai-ji, seguimos para o Kasuga Taisha, principal santuário xintoísta de Nara, fundado no século VIII e ligado à formação da antiga capital. O conjunto se destaca pelos edifícios em tons de vermelho, que contrastam com a vegetação ao redor. O acesso é marcado por caminhos com centenas de lanternas de pedra e metal, que fazem parte da identidade visual do local. Ao longo do percurso, observamos práticas tradicionais de oração e um ambiente mais silencioso, integrado à floresta. A proximidade com o Parque de Nara reforça a presença dos cervos, considerados sagrados na tradição xintoísta e associados ao santuário.

As lanternas do Kasuga Taisha
As lanternas do Kasuga Taisha têm origem em uma tradição de doações que remonta a séculos. Fiéis, famílias e até clãs importantes ofereciam lanternas ao santuário como forma de devoção, agradecimento ou pedido aos kami, divindades do xintoísmo. Com o tempo, esse gesto se acumulou, resultando nas milhares de lanternas de pedra ao longo dos caminhos e nas de bronze penduradas nos pavilhões. Muitas delas possuem inscrições que registram o nome do doador e a época da oferenda, funcionando também como um registro histórico. Duas vezes por ano, durante festivais tradicionais, são acesas simultaneamente, criando um ambiente simbólico que reforça a ligação entre espiritualidade, memória e continuidade das tradições no Japão.

Quioto: tradição, cultura e continuidade histórica
Seguimos de Nara para Quioto, a capital do Japão por mais de mil anos (794–1868) e que permanece como o principal centro cultural e histórico do país. Localizada na ilha de Honshu, a cidade preserva um grande número de templos budistas, santuários xintoístas e bairros tradicionais.

O Templo Dourado de Quioto
Visitamos o Kinkaku-ji, conhecido como o Templo Dourado, um dos ícones de Quioto. O edifício é revestido com folhas de ouro nas camadas superiores, refletindo no lago ao seu redor e criando uma das imagens mais marcantes do Japão. Originalmente construído no século XIV como residência de um xogum, o espaço foi posteriormente transformado em templo budista. Sua composição integra arquitetura e paisagismo, com o pavilhão posicionado de forma estratégica em relação ao espelho d’água e ao jardim. A visita segue um percurso definido, permitindo observar diferentes ângulos e a relação entre o edifício e a paisagem ao redor.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


