A Fordlândia e outros megaprojetos econômicos da Amazônia
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- joaquimnery
- 2 de abril de 2025
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16 de outubro de 2024
A Praia do Pindobal
Estávamos em Alter do Chão, às margens do Rio Tapajós, no Pará. Saímos para o segundo dia de programa no rio. O nosso guia e piloto “John Lennon”, preparou para o dia de hoje, um programa especial. Começamos subindo o Rio Tapajós até Praia do Pindobal, onde existe um dos melhores banhos do Tapajós. Uma praia extensa, com água morna e uma barraca que atende aos visitantes com serviços de alimentos e bebidas. O banho no Rio Tapajós é espetacular. Na beira do rio, algumas barracas com mesas, cadeiras e espreguiçadeiras complementam a infraestrutura para os visitantes.

A borracha vegetal
Foi lá, que o John Lennon nos contou sobre a Fordlândia e outros megaprojetos da Amazônia. No final do século XIX, a borracha vegetal tornou-se um dos insumos mais estratégicos e valiosos para a indústria global, impulsionando o avanço tecnológico e a modernização de diversos setores. Extraída principalmente da seringueira da Amazônia, a borracha era essencial para a fabricação de pneus, correias, isolantes elétricos e diversos componentes mecânicos indispensáveis à nascente indústria automobilística e ao setor de eletricidade. Sua versatilidade e resistência transformaram-na em um recurso vital para as grandes potências industriais, provocando uma verdadeira corrida pelo látex e conferindo enorme importância econômica às regiões produtoras, especialmente à Amazônia brasileira, que viveu um período de riqueza e efervescência conhecido como o Ciclo da Borracha. O único lugar do mundo onde se produzia látex de seringueira era o Brasil. Isso atraiu muita riqueza para a Amazônia.

Os Ciclos da Borracha
O primeiro ciclo da borracha ocorreu entre aproximadamente 1879 e 1912, impulsionado pela crescente demanda internacional por látex natural, que transformou a Amazônia em um centro econômico estratégico. O auge se deu com a urbanização de cidades como Manaus e Belém. No entanto, o ciclo entrou em colapso quando os britânicos desenvolveram plantações de seringueiras mais produtivas no Sudeste Asiático. O segundo ciclo surgiu durante a Segunda Guerra Mundial (1942–1945), quando os aliados perderam o acesso às fontes asiáticas de borracha, fazendo com que os Estados Unidos firmassem acordos com o Brasil para reativar a produção amazônica. Apesar do esforço, o ciclo foi breve e terminou com o fim da guerra, quando os mercados voltaram a importar borracha asiática e, posteriormente, a utilizar borracha sintética.

A Fordlândia
A Companhia Ford, entendendo a importância estratégica da borracha vegetal, decidiu implantar um megaprojeto para a produção de borracha vegetal na Amazônia. Como a produção era exclusivamente extrativa, decidiu cultivar seringueira, acreditando que dessa forma teriam maior produtividade. Implantaram uma grande fazenda, numa localidade a aproximadamente 200 km a oeste de Santarém. Começaram a plantar uma grande área. Trouxeram técnicos dos Estados Unidos, com as suas famílias e montaram uma cidade no coração da floresta, com escolas, hospitais, igrejas e uma grande infraestrutura. O projeto foi batizado de Fordlândia. Investiu aproximadamente 20 milhões de dólares no projeto, valor considerável para a época e que, ajustado à inflação, ultrapassaria os 250 milhões de dólares hoje. Esse montante foi direcionado à compra de terras no interior do Pará, construção de uma cidade planejada com estilo americano, além da implementação de infraestrutura para a extração e processamento de borracha. A Fordlândia acabou sendo abandonada em 1945, deixando para trás ruínas de uma utopia industrial que nunca se concretizou.

A Belterra
Na mesma época, a Ford ainda montou uma segunda cidade. A Belterra, que foi a segunda tentativa de Henry Ford em produzir borracha na Amazônia, após o fracasso de Fordlândia. O projeto buscava corrigir erros anteriores com melhor planejamento urbano, assessoria técnica e uma localização mais favorável. A cidade foi estruturada com casas bem ventiladas, hospital, escola e infraestrutura moderna. No entanto, apesar dos avanços, o cultivo em monocultura continuou vulnerável a pragas. Além disso, o surgimento da borracha sintética e a concorrência asiática tornaram o projeto economicamente inviável. Em 1945, a Ford encerrou suas atividades, e Belterra foi transferida ao governo brasileiro. A cidade de Belterra ainda preserva as casas e outros edifícios da época da Fordlândia. O porto de Belterra ficava nessa região, onde hoje fica a praia de Pindobal. Ainda é possível ver na praia, os restos dos trilhos usados para carregar os navios e outros equipamentos que foram abandonados com o fim do projeto.

O Projeto Jari e outros megaprojetos amazônicos
Além de Fordlândia e Belterra, a Amazônia foi palco de diversos megaprojetos ao longo do século XX, marcados por ambições industriais e impactos socioambientais profundos. O Projeto Jari, concebido pelo bilionário americano Daniel Ludwig, tentou implantar um complexo agroindustrial de celulose entre o Pará e o Amapá, mas fracassou diante de desafios logísticos e ambientais. A ALCOA instalou-se em Juruti (PA) para explorar bauxita e produzir alumínio, provocando debates sobre desmatamento, uso intensivo de água e energia, e os efeitos sobre comunidades locais. A exploração mineral também se intensificou com projetos como o da Serra dos Carajás (PA), um dos maiores complexos de mineração de ferro do mundo, operado pela Vale, que transformou a região com infraestrutura ferroviária e energética. Na Serra do Navio (AP), a mineração de manganês, liderada pela Icomi com apoio da americana Bethlehem Steel, marcou a economia regional por décadas, enquanto a Serra Pelada (PA) protagonizou um dos maiores garimpos de ouro da história, atraindo milhares de trabalhadores em condições precárias. A visita à Praia do Pindobal e a visualização do que restou do antigo porto de escoamento de borracha de Belterra, faz lembrar de todos esses grandes desafios da Amazônia e de quanta riqueza existe por lá.

Um banho de rio espetacular
Na volta da Praia do Pindobal, ainda fizemos uma última parada, numa praia qualquer na margem do Rio Tapajós, para um banho de rio espetacular.

A Cerimônia do “Pirarimbó”
À noite fomos a uma Cerimônia do Pirarimbó (Piracaia com carimbó). Um programa turístico desenvolvido em Alter do Chão, que tenta unir duas tradições dessa região do Tapajós. A Piracaia é um ritual tradicional dos povos indígenas do Brasil e envolve o preparo coletivo de peixes assados em fogueiras ao ar livre. É um jantar numa praia na beira do rio, onde são preparados peixes amazônicos, na brasa, enrolados em folha de bananeira. É uma cerimônia ancestral que associada a uma noite de contemplação numa praia na beira do rio. A cerimônia também é marcada por cantos, danças e narrativas orais que transmitem conhecimentos ancestrais e reafirmam a identidade cultural do grupo.

Piracaia com Carimbó
No Pirarimbó, a Piracaia é acompanhada de uma demonstração de carimbó. Um show folclórico, com música, dança e algumas histórias sobre botos, curupira e outros personagens do folclore da Amazônia, que são contadas para animar a noite. No final, um jantar à luz de velas, numa praia na beira do rio, onde os turistas que adquiriram o programa sentam-se em esteiras e cadeiras ao redor de um círculo de velas, com uma fogueira ao centro. Para chegar e sair da praia, o grupo vai de barco. Tudo isso cria um clima de suspense e animação.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.



