Rio Arapiuns, muito mais que “O Caribe Brasileiro”
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- 6 de abril de 2025
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17 de outubro de 2024
A Loja Araribá em Alter do Chão
Estávamos em Alter do Chão, na margem do Rio Tapajós, no Pará. Começamos o dia visitando a Loja Araribá, no centro da vila, que possui um grande acervo e estoque de artesanato amazônico. Dá vontade de levar um pouquinho de cada coisa em exposição. É a loja de artesanatos mais importante de Alter do Chão, mas passava uma sensação de que os produtos estavam entulhados, uns sobre os outros. A loja era excelente, apesar da má distribuição dos produtos.

O Rio Arapiuns
Depois da loja Araribá, seguimos para fazer um programa incrível no maravilhoso Rio Arapiuns, um grande afluente do Rio Tapajós, famoso pelas extensas praias de areias brancas. É um verdadeiro paraíso de águas calmas e cristalinas, cercado por praias de areias claras e comunidades ribeirinhas acolhedoras. Essa região é apelidada de “Caribe da Amazônia”. Sua paisagem intocada e biodiversidade impressionante fazem dele um refúgio natural perfeito para quem busca conexão com a floresta. O dia estava magnífico para o passeio. Águas paradas que facilitavam a navegação e que não são tão comuns ao Rio Arapiuns.

A seca severa na Amazônia
A seca severa que atingiu os rios da Amazônia em 2024 foi uma das mais drásticas já registradas, com impactos profundos para o ecossistema, comunidades ribeirinhas e a navegação fluvial. Fez com que as praias ficassem maiores e mais belas, porém não dava para comemorar por conta das causas e consequências dessas secas. A estiagem prolongada, agravada pelas mudanças climáticas e pelo fenômeno El Niño, expôs bancos de areia onde antes havia vastas extensões de água e deixou centenas de comunidades isoladas, sem acesso a alimentos, água potável e atendimento médico.

A Comunidade Coroca
Paramos para visitar a Comunidade de Coroca, um exemplo vibrante de harmonia entre o modo de vida tradicional e a preservação ambiental. Habitada por famílias ribeirinhas que vivem da pesca, agricultura de subsistência e do artesanato, Coroca encanta pela simplicidade, hospitalidade e riqueza cultural. O cenário natural é maravilhoso, com praias de areias brancas, águas transparentes e uma floresta exuberante ao redor. A comunidade também tem se destacado por iniciativas sustentáveis e pelo turismo de base comunitária, oferecendo aos visitantes uma imersão autêntica na vida amazônica.

A navegação pelo Rio Arapiuns
O programa que envolve o Rio Arapiuns fica num local distante de Alter do Chão, mas vale muito à pena. Foram duas horas de navegação. A paisagem é espetacular e nos surpreende a cada curva do rio. O barco ficou ancorado distante da sede da comunidade, por conta da seca do rio. Mesmo assim era um mundo de água ao nosso redor.

Agricultura familiar e turismo
O local começou a ser ocupado a partir da década de 1920, por um casal de caboclos, Manoel Santos e Maria Pereira. Hoje, possui cerca de 20 famílias que vivem aí e sobrevivem da pesca, uma agricultura familiar, venda de artesanatos, criação de abelhas e produção de mel, além do turismo, que hoje é a principal fonte de renda da comunidade. Praticam educação ambiental e sustentabilidade.

O meliponário
Logo na chegada à Comunidade de Coroca, um guia local, um caboclo da Amazônia, nos levou para conhecer algumas árvores típicas da floresta e nos ensinar sobre as propriedades medicinais de cada uma delas. Seguimos para visita para a área de criação de abelhas e produção de mel (meliponário). A comunidade desenvolve a produção de mel e a criação de abelhas brasileiras. As espécies brasileiras de abelhas, não têm ferrão e, portanto, não trazem riscos de acidentes para os locais nem para os turistas.

A Starlink nas comunidades remotas
Seguimos visitando Coroca e fomos até uma lojinha de artesanato cooperativo que existe ali. Desde que saímos de Alter do Chão estávamos sem contato com a internet. Quando chegamos na lojinha de artesanato, uma pequena antena da Starlink, fornecia internet para toda a comunidade. Isso era fundamental para viabilizar o negócio da comunidade e conectá-los com o mundo. Sem internet não existe comércio e não existe prosperidade. A chegada da Starlink às comunidades remotas da Amazônia representou uma revolução no acesso à informação, comunicação e oportunidades. Com a internet de alta velocidade via satélite, populações antes isoladas passam a ter acesso a serviços essenciais como educação a distância, telemedicina, e-commerce e contato com o restante do mundo.

A ação do Padre José Gross
A Comunidade de Coroca adquiriu importância e sustentabilidade a partir da ação do Padre José Gross, missionário alemão da Congregação do Verbo Divino, que desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento socioambiental da Comunidade. Nos anos 1990, ele incentivou os moradores a diversificarem suas atividades econômicas, promovendo a criação de tracajás (tartarugas-da-Amazônia) como alternativa sustentável à agricultura tradicional. Com seu apoio, a comunidade estabeleceu um projeto de preservação e repovoamento desses animais, que se tornou parte essencial da identidade local e contribuiu para a conservação da espécie. Além disso, o Padre Gross auxiliou na construção de infraestruturas, como um muro de contenção no lago Coroca, facilitando a criação de tambaquis e tartarugas. Sua dedicação e visão ajudaram a transformar Coroca em um modelo de turismo de base comunitária e sustentabilidade na região.

Criação de tracajás
Continuamos o programa com o nosso guia e fomos até os tanques onde são criados tracajás e tartarugas. O objetivo inicial desse o projeto com as tartarugas e tracajás era o abate e comercialização oficial da carne com certificado ambiental. Hoje, a Comunidade Coroca, cria apenas para repovoamento e reprodução. A criação de tracajás na Amazônia é uma prática tradicional que alia sustentabilidade, preservação e subsistência. Esses quelônios de água doce, típicos da região, são criados por muitas comunidades ribeirinhas em viveiros naturais ou controlados, tanto para consumo próprio quanto para conservação da espécie. O manejo responsável ajuda a proteger os tracajás da caça predatória e garante uma fonte alimentar rica em proteínas, respeitando os ciclos reprodutivos e os saberes ancestrais dos povos amazônicos.

Comida simples de qualidade
No final do programa na Comunidade Coroca, almoçamos no restaurante que existe ali, para atender aos visitantes. A opção do cardápio é no melhor estilo amazônico. Peixe na brasa. As opções mais demandadas são, o pirarucu, o tambaqui e o filhote. A comida simples, mas de qualidade. Estava espetacular.

Um banho de rio na Ponta Grande
Depois do almoço começamos a navegar de volta para Alter do Chão. O dia estava incrivelmente lindo e as águas paradas do Rio Arapiuns eram um presente da natureza, pois nem sempre é assim. Paramos para um banho na praia de Ponta Grande, que possui uma areia incrivelmente branca, emoldurando a paisagem que faz jus ao apelido de “Caribe da Amazônia”. A península da Ponta Grande é muito extensa. Possibilita belas fotos e alguns visitantes aproveitam para uma curta caminhada contemplativa.

Transporte de madeira no Rio Arapiuns
No meio da navegação pelo Rio Arapiuns, encontramos uma grande balsa, transportando madeira rio abaixo. A exploração de madeira na Amazônia, hoje em dia é muito mais controlada e acontece em volume muito menor que no passado. A legislação para a liberação de madeira certificada é mais rigorosa e o contrabando é fiscalizado com rigor. Passamos ao lado da balsa carregada de madeira e fizemos algumas fotografias. Tivemos a sensação de que o piloto e auxiliar ficaram incomodados com as nossas fotos.

A exploração clandestina de madeira
A exploração clandestina, porém, continua existindo, e é uma das maiores ameaças à floresta, alimentando um mercado ilegal que causa devastação ambiental, perda de biodiversidade e conflitos com comunidades tradicionais. O transporte fluvial desempenha um papel central nesse esquema, pois os rios da região são utilizados como rotas discretas para escoar grandes volumes de toras extraídas ilegalmente. Balsas e barcos transportam madeira por longos trechos, muitas vezes sem fiscalização efetiva. As principais espécies visadas por madeireiros ilegais incluem o ipê, a maçaranduba, o jatobá e a castanheira — árvores de grande porte e alto valor comercial, usadas na construção civil e na indústria moveleira.

Uma imensidão de água
A navegação pelo Rio Arapiuns possibilita a observação de uma paisagem espetacular. Um lugar raro e impressionante pela sua imensidão, sensação de calmaria e isolamento. Uma imensidão de água.

Qualquer praia é magnífica
Paramos mais uma vez para um banho de rio maravilhoso. Não precisa escolher em qual praia parar. Qualquer lugar é magnífico. A água morna do rio é um convite ao deleite e dá uma vontade de continuar. A sensação é de que podemos ficar ali por muito tempo, observando os peixes que saltam para fora d’água, perseguidos pelos botos ou outro peixe maior qualquer. Como não queríamos navegar à noite, decidimos sair da água, pois o trajeto até o Rio Arapiuns é longo. Quando saímos da água, ainda tivemos mais uma hora e meia de navegação até chegar a Alter do Chão.

O Restaurante Tribal
À noite fomos ao Restaurante Tribal, muito ruim, mas não tínhamos outra indicação e foi o que restou para nós naquela noite.
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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


