Paris histórica: Notre-Dame, Sainte-Chapelle e Beaubourg
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- joaquimnery
- 2 de agosto de 2026
- Europa França Super Destaque
29 de dezembro de 1991
Nossa primeira caminhada, sozinhos por Paris
Na manhã de 29 de dezembro de 1991, deixamos Sebastião Nery e Cristina em casa e seguimos sozinhos em direção ao centro de Paris. Era nossa primeira experiência caminhando sem a companhia dos anfitriões, circulando por alguns dos bairros mais antigos da cidade. A sensação misturava entusiasmo, curiosidade e uma pequena insegurança, natural para quem fazia a primeira viagem à Europa. Aos poucos, porém, fomos percebendo que caminhar era uma das melhores maneiras de conhecer Paris. As ruas, os edifícios, as pontes e as praças revelavam detalhes que poderiam passar despercebidos durante um passeio de carro. Começávamos a descobrir o prazer de percorrer a cidade sem pressa, observando a arquitetura e acompanhando o movimento cotidiano dos parisienses.

O Hôtel de Ville e o coração administrativo da cidade
Nossa primeira parada foi em frente ao Hôtel de Ville, o imponente edifício onde funciona a Prefeitura de Paris. Localizado próximo ao Rio Sena, o conjunto ocupa uma área ligada à administração da cidade desde a Idade Média. Sua fachada, rica em esculturas, janelas e elementos decorativos, chama a atenção pela grandiosidade e pela harmonia. Estávamos diante de um espaço diretamente relacionado à história política da cidade, cenário de acontecimentos importantes e de grandes manifestações públicas. A praça em frente ao edifício ampliava a sensação de monumentalidade e funcionava como uma introdução perfeita para o percurso daquele dia. Dali seguimos em direção à Île de la Cité, a ilha situada no meio do Sena e considerada um dos núcleos de formação da cidade.

Île de la Cité, o lugar onde Paris começou
Entramos na Île de la Cité e nos aproximamos das origens de Paris. Cercada pelas águas do Sena e conectada às duas margens por diferentes pontes, a ilha guarda alguns dos monumentos mais importantes da capital francesa. Durante séculos, foi centro religioso, político e administrativo da cidade. Caminhamos por suas ruas estreitas imaginando como aquele espaço havia se transformado desde os primeiros assentamentos até a formação de uma das maiores metrópoles do mundo. Dá para ver claramente a importância do rio na organização urbana. O Sena não era apenas um elemento da paisagem: havia orientado o crescimento de Paris, facilitado o transporte e ajudado a definir a localização de seus principais centros de poder.

O primeiro encontro com a Catedral de Notre-Dame
Chegamos à magnífica Catedral de Notre-Dame de Paris. Construída a partir do século XII e ampliada ao longo de aproximadamente duzentos anos, ela representa uma das maiores expressões da arquitetura gótica francesa. A fachada principal impressionava pela simetria, pelas torres e pela riqueza de suas esculturas. Entre os elementos mais importantes estava o Portal da Virgem, dedicado a Maria, padroeira da catedral. Imagens religiosas, figuras de santos e representações de reis formavam uma espécie de narrativa esculpida em pedra. As catedrais medievais eram centros de poder, conhecimento, arte e identidade coletiva.

Uma missa no interior da catedral
Entramos na Notre-Dame enquanto uma missa estava sendo celebrada. Permanecemos por algum tempo acompanhando a cerimônia e observando o interior da igreja. A nave elevada, as colunas, os arcos e os vitrais criavam uma atmosfera de solenidade. As grandes rosáceas coloridas estavam entre os principais destaques, filtrando a luz e ajudando a produzir o efeito espiritual característico das catedrais góticas. A visita foi marcante, embora tenhamos considerado que o interior da Catedral de Chartres, visitada alguns dias antes, havia nos impressionado ainda mais. Essa comparação mostrava como cada igreja possuía uma personalidade própria. Chartres nos encantara especialmente pelos vitrais e pela atmosfera interior, enquanto a Notre-Dame se destacava pela localização, pela fachada monumental e pela profunda ligação com a história de Paris.

Victor Hugo e a Notre-Dame
Parte da fama internacional da catedral está ligada ao romance de Victor Hugo, publicado em 1831 e conhecido no Brasil como O Corcunda de Notre-Dame. A obra apresenta personagens como Quasimodo, o sineiro da catedral, e Esmeralda, a jovem cigana por quem ele se apaixona. Victor Hugo criou uma história inesquecível, o ajudou a despertar o interesse pela preservação do monumento, que se encontrava bastante degradado no século XIX. O sucesso do romance contribuiu para mobilizar a sociedade francesa e fortalecer o movimento que resultaria na restauração conduzida por Eugène Viollet-le-Duc. Ao visitar a igreja, era difícil separar o edifício real das imagens construídas pela literatura. Notre-Dame parecia reunir, num mesmo espaço, fé, arquitetura, história e imaginação.

Subimos a escadaria que leva às torres de Notre-Dame
Decidimos subir os 387 degraus que levavam às torres da fachada. A subida foi longa e cansativa, especialmente pelas escadas estreitas, mas a recompensa surgiu quando alcançamos o alto da catedral. Dali tivemos uma das mais belas vistas de Paris. O Rio Sena, os telhados, as pontes, as torres das igrejas e os grandes monumentos formavam uma paisagem inesquecível. Era uma forma privilegiada de observar a cidade e compreender sua organização espacial. No interior da torre também conhecemos o grande sino Emmanuel, ligado à história da catedral. Depois do esforço da subida, permanecemos algum tempo contemplando Paris do alto, aproveitando cada detalhe daquele cenário que até poucos dias antes existia para nós apenas em fotografias e livros.

Gárgulas e quimeras sobre os telhados de Paris
No alto de Notre-Dame encontramos também as famosas gárgulas e quimeras. Embora muitas vezes sejam tratadas como se fossem iguais, elas possuem funções diferentes. As gárgulas foram incorporadas à arquitetura para conduzir a água das chuvas para longe das paredes, evitando danos à estrutura. Já as quimeras são essencialmente decorativas e representam criaturas fantásticas. Vistas de perto, essas figuras pareciam vigiar a cidade desde as torres. Algumas foram acrescentadas durante as restaurações do século XIX e ajudaram a consolidar a imagem misteriosa da catedral. Com Paris ao fundo, tornavam-se excelentes temas para fotografias. A mistura entre beleza, estranheza e funcionalidade mostrava como a arquitetura medieval conseguia combinar necessidades práticas com símbolos religiosos e elementos do imaginário popular.

A Sainte-Chapelle e o antigo Palácio Real
Depois da visita à Notre-Dame, seguimos em direção ao Palácio da Justiça, onde tivemos uma vista externa da Sainte-Chapelle. A capela foi construída no século XIII por ordem do rei Luís IX, posteriormente canonizado como São Luís. Sua função era abrigar importantes relíquias da Paixão de Cristo, entre elas a Coroa de Espinhos e um fragmento que se acreditava pertencer à cruz. Concebida como um grande relicário, a construção fazia parte do antigo palácio dos reis franceses na Île de la Cité. Mesmo observada apenas externamente, sua arquitetura elegante já despertava interesse. A Sainte-Chapelle foi concluída em poucos anos e tornou-se uma das maiores obras do “gótico radiante”.

Um tesouro de luz escondido em Paris
Naquela ocasião, não chegamos a conhecer o interior da Sainte-Chapelle, onde estão seus elementos mais celebrados. A capela superior é cercada por quinze enormes conjuntos de vitrais que transformam as paredes em verdadeiros painéis de luz e cor. As cenas retratam episódios bíblicos e também a chegada das relíquias a Paris. Ao todo, são mais de mil representações distribuídas pelos vitrais, compondo uma narrativa visual criada para exaltar a fé cristã e o poder da monarquia francesa. Mesmo sem termos vivido essa experiência durante aquela primeira visita, a visão externa despertou nossa curiosidade. Paris começava a nos ensinar que alguns dos seus maiores tesouros ficam escondidos atrás de fachadas relativamente discretas e só revelam toda a sua beleza quando o visitante atravessa suas portas.

Do gótico medieval à arquitetura do Beaubourg
Saímos da Île de la Cité e continuamos caminhando em direção ao Centro Georges Pompidou, conhecido popularmente como Beaubourg. Em poucos minutos, deixávamos para trás a arquitetura medieval da Notre-Dame e da Sainte-Chapelle para encontrar um dos edifícios mais modernos e provocadores de Paris. Inaugurado em 1977, o centro cultural foi projetado por Renzo Piano e Richard Rogers. Sua estrutura de vidro e metal, marcada por tubulações coloridas, escadas rolantes e elementos técnicos expostos, parecia ter sido construída às avessas. Tudo aquilo que normalmente ficaria escondido no interior de um edifício havia sido deslocado para a fachada. O resultado era surpreendente e estabelecia um contraste radical com o bairro histórico ao redor.

Um centro dedicado à arte e à cultura
O Centro Pompidou foi concebido como um grande espaço multidisciplinar, reunindo museu, biblioteca, exposições, atividades culturais e áreas destinadas a espetáculos. Seu acervo está ligado à arte moderna e contemporânea, incluindo obras de artistas como Picasso, Matisse e Miró. No entanto, o impacto do Beaubourg não estava apenas em suas coleções. O próprio edifício já funcionava como uma obra de arte, capaz de provocar debates sobre a relação entre arquitetura, tecnologia e cidade. A ampla praça diante do centro cultural contribuía para aproximar o edifício da vida urbana. Não era um monumento isolado, mas um espaço aberto à circulação e ao encontro entre pessoas de diferentes origens.

A praça tomada pelos artistas de rua
Na área externa do Beaubourg encontramos uma grande multidão acompanhando apresentações de artistas de rua. Músicos, atores e outros performers transformavam a praça em um verdadeiro palco ao ar livre. A animação criava um ambiente completamente diferente da solenidade que havíamos encontrado na Notre-Dame. Paris revelava, em um único dia, sua extraordinária capacidade de reunir passado e presente, religião e arte, silêncio e movimento. Foi ali que reencontramos Sebastião Nery e Cristina. Depois de percorrermos sozinhos parte da cidade, estávamos prontos para continuar a programação com nossos anfitriões. Nosso próximo destino seria Montmartre, outro bairro repleto de histórias, personagens e paisagens que marcariam profundamente aquela primeira viagem à Europa.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


