Atravessando o Estreito de Gibraltar: uma viagem entre dois continentes
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- joaquimnery
- 14 de agosto de 2018
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- Ásia Gibraltar Marrocos
15 de abril de 2018
O início de uma travessia inesquecível
Existem poucos lugares no mundo onde é possível sair de um continente pela manhã e chegar a outro antes do almoço. Foi exatamente essa experiência que vivemos ao deixar Tânger, no norte do Marrocos, rumo a Algeciras, na Espanha. A travessia do Estreito de Gibraltar era muito mais do que um simples deslocamento entre dois países; representava a passagem entre a África e a Europa por um dos corredores marítimos mais importantes do planeta. Chegamos cedo ao terminal portuário, onde já tínhamos adquirido nossos bilhetes ainda no Brasil. O embarque foi rápido e tranquilo, e logo percebemos que o grande movimento era de caminhões abastecendo uma intensa rota comercial, enquanto o número de passageiros era relativamente pequeno. Poucos minutos depois, o ferry deixava lentamente o porto, iniciando uma das etapas mais simbólicas de toda a viagem.

Navegando por um dos pontos mais estratégicos do planeta
Os ferries que ligam Tânger a Algeciras são modernos, confortáveis e oferecem uma navegação extremamente agradável. Durante aproximadamente uma hora de percurso, fomos contemplando uma paisagem carregada de significado geográfico. O Estreito de Gibraltar possui cerca de 14 quilômetros em seu trecho mais estreito e funciona como a única ligação natural entre o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo. Ao mesmo tempo, separa dois continentes e conecta algumas das rotas comerciais mais importantes do mundo. Enquanto observávamos a costa africana ficando para trás, era impossível não imaginar quantos navegadores cruzaram aquelas águas ao longo da história. Fenícios, cartagineses, romanos, árabes e europeus compreenderam desde cedo que controlar esse estreito significava controlar uma das grandes portas de entrada do Mediterrâneo.

Geografia, oceanografia e a lenda das Colunas de Hércules
Além de sua enorme importância estratégica, o Estreito de Gibraltar reúne fenômenos naturais fascinantes. Ali ocorre um encontro permanente entre as águas do Atlântico e do Mediterrâneo. As correntes superficiais levam águas menos salgadas do Atlântico para o interior do Mediterrâneo, enquanto correntes profundas fazem o caminho inverso, transportando águas mais densas e salgadas em direção ao oceano. Para um professor de Geografia, observar aquele cenário era como estar diante de um livro aberto. A região também está cercada por um dos mitos mais conhecidos da Antiguidade. Segundo a mitologia grega, Hércules teria separado as montanhas que uniam Europa e África durante um de seus famosos trabalhos, criando as lendárias Colunas de Hércules. Embora hoje saibamos que o estreito foi formado pelos movimentos tectônicos ao longo de milhões de anos, a mitologia continua tornando essa travessia ainda mais especial.

O Rochedo de Gibraltar anuncia a chegada à Europa
À medida que nos aproximávamos da costa espanhola, uma enorme formação calcária começou a dominar completamente a paisagem. Era o Rochedo de Gibraltar, com seus 426 metros de altitude, considerado um dos grandes símbolos geográficos da Europa. Sua localização estratégica explica as inúmeras disputas históricas pelo controle da região. Ainda hoje Gibraltar permanece como um Território Ultramarino Britânico situado no extremo sul da Península Ibérica, apesar das reivindicações espanholas. Sua posição permite controlar visualmente praticamente toda a circulação marítima entre o Atlântico e o Mediterrâneo. Para quem aprecia geopolítica, poucos lugares ilustram tão bem como a geografia influencia as relações internacionais. Ver aquele imenso rochedo surgir lentamente diante do ferry foi um dos momentos marcantes de toda a viagem.

A melhor decisão foi deixar o carro na Espanha
Desembarcamos em Algeciras e seguimos de carro até La Línea de la Concepción, cidade espanhola localizada junto à fronteira com Gibraltar. Nosso objetivo era conhecer o território britânico antes de continuar a viagem pela Andaluzia. Ao chegar, encontramos uma longa fila de veículos aguardando para cruzar a fronteira. Felizmente, optamos por estacionar ainda em território espanhol e fazer o restante do percurso caminhando. Foi uma decisão acertada. Após os procedimentos de imigração, encontramos facilmente uma agência que oferecia passeios guiados pelo Rochedo de Gibraltar, pelas Cavernas de São Miguel e pelos famosos macacos-de-barbária, únicos primatas vivendo em liberdade em toda a Europa. Além de economizar um tempo precioso, pudemos aproveitar a visita de maneira muito mais tranquila e organizada.

Muito mais que uma simples travessia
Algumas etapas de uma viagem acabam se transformando em atrações tão importantes quanto os próprios destinos. A travessia do Estreito de Gibraltar foi exatamente assim. Durante pouco mais de uma hora navegamos entre dois continentes, observando um dos cenários geográficos mais emblemáticos do planeta e compreendendo, na prática, como a localização de um lugar pode influenciar a história da humanidade, o comércio internacional e a geopolítica mundial. Para quem gosta de viajar entendendo o significado dos lugares visitados, poucas experiências são tão completas quanto essa. Cruzar o estreito é sentir que África e Europa estão separadas por poucos quilômetros, mas ligadas por milhares de anos de história. Foi um daqueles momentos em que percebemos que viajar não é apenas mudar de lugar, mas também ampliar a forma como enxergamos o mundo.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.



Comments (3)
joaquimnery
25 set 2024Não. A entrada em Gibraltar é controlada e esse controle fica na área continental.
Anônimo
23 set 2024Ola quero agradecer sua informaçoes e fazer uma pergunta: nao tem como pegar a balsa de Tangier direto para Gibraltar?
Luiz Carlos de Paula Lima
05 fev 2019Caminho mais curto entre a Europa e a África adorei ter Êsse conhecimento.obg.