Uma viagem improvisada pela Romênia
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- joaquimnery
- 17 de outubro de 2026
- Europa Romênia Super Destaque
Setembro de 2026
O sonho da viagem começou com um cruzeiro pelo Danúbio
Quando começamos a planejar esta viagem pela Europa, para o segundo semestre de 2026, o eixo principal do roteiro seria um cruzeiro pelo Rio Danúbio. Já conhecíamos Viena e Budapeste, dois dos principais atrativos do rio, por isso optamos por um Cruzeiro pelo baixo curso. Sairíamos de Oltenita, na Romênia para Budapeste, na Hungria. Completaríamos a viagem com dois destinos da Polônia, que não conhecíamos e estavam sempre nos planos de viagem: Varsóvia e Cracóvia. Deveríamos chegar à Romênia, passar alguns dias conhecendo Bucareste e a Transilvânia e, depois, embarcar em Oltenița no Avalon Passion, um navio de cruzeiro fluvial, que faz roteiros pelo Danúbio. Seguiríamos pelo Baixo Danúbio, passando pela Bulgária, Sérvia e Croácia até chegar a Budapeste. Era um roteiro que me interessava especialmente porque permitiria conhecer uma parte da Europa que não conhecia, acompanhando, pelo rio, as mudanças de paisagem, cidades e culturas ao longo dos Bálcãs. Subir o Rio Danúbio seria o fio condutor de boa parte da viagem.

O verão mudou o cenário e o programa
À medida que 2026 avançava, acompanhava com atenção as notícias sobre a situação dos rios europeus. Uma combinação de pouca chuva, temperaturas elevadas e sucessivas ondas de calor provocou uma seca única e bastante severa em grande parte da Europa. O problema atingiu especialmente a Europa Central e Oriental e a bacia dos rios Reno e Danúbio. Em agosto, o Observatório Europeu da Seca mantinha condições de alerta em diversos países atravessados pelo rio, entre eles Áustria, Hungria, Croácia, Sérvia, Romênia e Bulgária. Exatamente os lugares por onde passaríamos. O Danúbio, assim como outros grandes rios europeus, chegou a registrar níveis excepcionalmente baixos.

Muito menos água no Danúbio
Na Romênia, a situação ficou particularmente evidente. Em julho, a vazão do Danúbio na entrada do país chegou a cerca de 1.700 metros cúbicos por segundo, diante de uma média histórica para o mês, de aproximadamente 4.700 m³/s. No final de agosto, permanecia em torno de 1.600 m³/s, quando a média histórica de agosto é próxima de 3.900 m³/s. Bancos de areia apareceram em diversos trechos, canais navegáveis ficaram mais estreitos e a redução do calado começou a criar dificuldades para embarcações comerciais e turísticas. Comecei a acompanhar relatórios diários sobre as condições do rio e as perspectivas de chuva, principalmente na Romênia e em Budapeste. A situação só ficava mais complicada.

O clima interferiu na viagem
Durante algumas semanas, ainda existia a expectativa de que as chuvas nas cabeceiras e nos afluentes recuperassem parte da vazão antes da nossa chegada. Mas isso não aconteceu com a intensidade necessária. A seca de 2026 afetou vários cruzeiros fluviais. Algumas companhias modificaram portos de embarque, substituíram trechos de navegação por ônibus ou hotéis e, em determinados casos, cancelaram partidas. A própria Avalon Waterways confirmou oficialmente que os baixos níveis do Reno e do Danúbio estavam afetando algumas de suas viagens. Em agosto recebemos a primeira comunicação importante da Avalon. Nosso cruzeiro já não poderia acontecer conforme o programa original. Em vez de embarcarmos em Oltenița, passaríamos inicialmente uma noite em Bucareste e seguiríamos para embarcar no Avalon Passion mais adiante, provavelmente em Turnu Severin ou Vidin. Também fomos informados de que o desembarque em Budapeste poderia não acontecer. O cruzeiro ainda existiria, mas começava a se transformar em uma viagem bastante diferente daquela que havíamos contratado.

A decisão de cancelar
Continuamos acompanhando a situação durante várias semanas, esperando alguma melhora significativa. Mas os níveis permaneceram muito baixos e as incertezas aumentaram. Outros cruzeiros pelo Danúbio também passaram por mudanças e cancelamentos. Diante desse cenário, decidimos renunciar ao cruzeiro e redesenhar completamente nossa viagem. Não queríamos fazer um roteiro fluvial no qual uma parte importante da navegação pudesse acabar substituída por longos deslocamentos rodoviários e mudanças de última hora. Preferimos assumir nós mesmos o controle do itinerário. Foi assim que nasceu uma viagem praticamente nova. Mantivemos a chegada à Romênia e os primeiros dias em Brașov e Bucareste, mas, em vez de embarcar no Danúbio, seguimos por terra. Entraram no roteiro Sibiu e Timișoara, além de uma parada no caminho para conhecer o Castelo dos Corvos. Depois, voamos para a Polônia, onde visitamos Gdansk, Varsóvia e Cracóvia, antes de terminar a viagem com alguns dias em Paris.

Improvisar um roteiro também faz parte da viagem
No fim das contas, esta viagem começou antes mesmo de entrarmos no avião. Planejamento é fundamental, mas flexibilidade também. Fenômenos naturais não obedecem aos nossos bilhetes, reservas ou roteiros. O Danúbio, que seria o protagonista desse roteiro, acabou mudando nossa direção. Não navegamos por ele como imaginávamos, mas foi justamente a falta de água no rio que nos levou a construir um programa completamente diferente. E talvez esteja aí uma das partes mais interessantes de viajar: nem sempre o caminho que efetivamente percorremos é aquele que havíamos desenhado no início. Seguimos para a Romênia, Polônia e Paris.
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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


