Réveillon em Amsterdam: virada de ano entre canais, moinhos e a liberdade holandesa
- 31 Views
- joaquimnery
- 5 de agosto de 2026
- Europa Holanda Super Destaque
31 de dezembro de 1991
Da Cidade Luz à capital dos canais
Depois de alguns dias inesquecíveis em Paris, decidimos encerrar 1991 de uma forma especial. Na manhã de 31 de dezembro, pegamos o carro e seguimos rumo a Amsterdam, em uma viagem que atravessou o norte da França, a Bélgica e, finalmente, a Holanda. O percurso já fazia parte da experiência. As paisagens urbanas deram lugar a extensas planícies agrícolas, campos perfeitamente organizados e pequenas cidades que pareciam ter saído de um cartão-postal. Ao cruzarmos a fronteira holandesa, começamos a observar uma das maiores obras de engenharia geográfica da Europa: os pôlderes, terras conquistadas ao mar ao longo de séculos, protegidas por diques e drenadas por uma sofisticada rede de canais. Ali também surgiam os primeiros moinhos de vento, símbolos de um país que aprendeu a transformar a água, de inimiga, em aliada. Era impossível não pensar em como a geografia moldou a história da Holanda.

A procura por um hotel na noite mais concorrida do ano
Chegamos a Amsterdam por volta das cinco da tarde, justamente quando a cidade começava a se preparar para a virada do ano. O entusiasmo logo deu lugar à preocupação: não tínhamos reserva de hotel. Naquela época, viajar sem planejamento era mais comum do que hoje, mas procurar hospedagem na noite do Réveillon não parecia uma boa ideia. Foi então que Sebastião Nery, experiente viajante, sugeriu que seguíssemos diretamente para o Centrum, o coração histórico da cidade. A estratégia funcionou. Depois de algumas tentativas, Sebastião e Cristina conseguiram um apartamento no tradicional Hotel De L’Europe, um dos mais elegantes de Amsterdam, enquanto Mônica e eu encontramos o último quarto disponível em um hotel simples, a poucas quadras dali. Estávamos instalados no melhor lugar possível: cercados pelos canais históricos e a poucos minutos das principais atrações da cidade.

Uma cidade construída sobre a água
Poucas cidades causam uma primeira impressão tão marcante quanto Amsterdam. A arquitetura preservada, as fachadas estreitas e inclinadas, os barcos navegando lentamente e a presença constante da água criam um cenário único. A cidade se desenvolveu às margens do Rio Amstel e consolidou sua importância graças à posição estratégica junto ao delta do Reno, uma localização que impulsionou seu crescimento como um dos maiores centros comerciais da Europa durante o Século de Ouro Holandês. Hoje, seus mais de cem quilômetros de canais e cerca de 1.500 pontes fazem parte de um conjunto urbano reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO. Passear por suas ruas é compreender como urbanismo, comércio e engenharia se combinaram para criar uma das cidades mais fascinantes do continente.

Descobrindo Amsterdam pelos canais
Não demoramos para fazer aquilo que considero indispensável em qualquer primeira visita à cidade: um passeio de barco pelos canais. Vista da água, Amsterdam revela uma perspectiva completamente diferente. As elegantes casas dos séculos XVII e XVIII parecem ainda mais harmoniosas, enquanto pequenas pontes unem bairros que mantêm, praticamente, a mesma configuração de centenas de anos atrás. Muitos dos antigos armazéns foram transformados em residências, hotéis e cafés, preservando a identidade arquitetônica da cidade. Navegar lentamente pelos canais permitia observar detalhes que passariam despercebidos caminhando pelas ruas: fachadas estreitas, ganchos usados para içar mercadorias até os andares superiores, barcos transformados em moradias e a intensa vida cotidiana dos moradores. Mais de trinta anos depois, ao retornar a Amsterdam, tive a sensação de que muito pouco havia mudado. A cidade conseguiu crescer sem perder a essência que a tornou famosa.

Entre a tradição e a liberdade
Depois do almoço no restaurante Excelsior, no Hotel De L’Europe, seguimos para conhecer uma das áreas mais comentadas da cidade: o Red Light District. Para quem chega pela primeira vez, o bairro provoca curiosidade e surpresa. As vitrines iluminadas, onde profissionais do sexo trabalham de forma legalizada, fazem parte de uma política pública baseada na regulamentação, diferente da realidade encontrada em muitos outros países. Ao redor delas surgem bares, coffeeshops, sex shops, teatros e lojas de souvenires que exploram esse aspecto da cultura local. Apesar da fama, o bairro vai muito além da prostituição. Trata-se de uma das áreas mais antigas de Amsterdam, repleta de edifícios históricos, igrejas medievais e canais que testemunham séculos de história. Caminhar por suas ruas foi uma oportunidade de observar, sem preconceitos, como diferentes sociedades lidam de maneiras distintas com temas ligados à liberdade individual.

Uma virada de ano diferente de tudo que já havíamos visto
À medida que a noite avançava, Amsterdam transformava-se completamente. Milhares de pessoas ocupavam as ruas carregando garrafas de champanhe, soltando fogos de artifício e comemorando antecipadamente a chegada do novo ano. Seguimos até a Rembrandtplein, uma das principais praças da cidade, onde encontramos um restaurante italiano para celebrar a virada. Quando o relógio marcou meia-noite, os fogos tomaram conta do céu e refletiram nas águas dos canais, criando um espetáculo inesquecível. Ao mesmo tempo, chamou nossa atenção a quantidade de jovens alcoolizados e usuários de drogas circulando pelas ruas. O ambiente era intenso, caótico e muito diferente das festas de Réveillon que conhecíamos no Brasil. Ainda assim, apesar da impressão inicial, tudo acontecia de forma relativamente organizada e pacífica. Depois de acompanhar parte das comemorações, decidimos voltar para o hotel já na madrugada, encerrando um dos dias mais marcantes daquela primeira viagem pela Europa.

Moinhos, pôlderes e as lições da geografia holandesa
Antes de deixar Amsterdam, seguimos viagem pelo interior da Holanda. As planícies verdes cortadas por canais, os diques e os tradicionais moinhos de vento ajudavam a explicar aquilo que tantas vezes eu havia ensinado em sala de aula. Era emocionante finalmente observar de perto os famosos pôlderes, resultado de séculos de trabalho para recuperar terras que antes pertenciam ao mar. Os moinhos desempenharam papel fundamental na drenagem dessas áreas, permitindo sua ocupação agrícola e urbana. A Holanda mostrou, de forma prática, como conhecimento técnico, planejamento e adaptação ao meio natural podem transformar completamente um território. Para um professor de Geografia, aquele não era apenas um passeio turístico, mas uma verdadeira aula ao ar livre.

Amsterdam continua encantando gerações
Ao retornar à cidade décadas depois, levei comigo as fotografias feitas naquele Réveillon de 1991. Foi impossível não compará-las com as imagens atuais. Os barcos continuam navegando pelos mesmos canais, as fachadas históricas permanecem preservadas, as bicicletas seguem dominando as ruas e a atmosfera cosmopolita continua sendo uma das marcas registradas da capital holandesa. Naturalmente, muita coisa mudou. O turismo aumentou, novos museus ganharam destaque e algumas regras relacionadas ao Red Light District e ao consumo de drogas passaram por revisões nos últimos anos, em busca de um turismo mais sustentável. Mesmo assim, Amsterdam conserva aquilo que sempre a diferenciou: a capacidade de unir tradição, inovação, tolerância e qualidade de vida em um cenário urbano absolutamente singular. Entre todas as lembranças daquela primeira viagem à Europa, a chegada do Ano Novo em Amsterdam permanece como uma das mais vivas e inesquecíveis.

Leia mais:
Da Place Vendôme à Ópera Garnier: um passeio elegante por Paris
Montmartre, Brasserie Lipp e Café de Flore: um dia entre artistas, escritores e amigos em Paris
- Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
- Compartilhar no X(abre em nova janela) X
- Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
- Compartilhar no LinkedIn(abre em nova janela) LinkedIn
- Compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) Pinterest
- Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


