Montmartre, Brasserie Lipp e Café de Flore: um dia entre artistas, escritores e amigos em Paris
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- joaquimnery
- 3 de agosto de 2026
- Europa França Super Destaque
29 de dezembro de 1991
Montmartre, onde Paris revela sua alma boêmia
Depois de reencontrarmos Sebastião Nery e Cristina no Centro Georges Pompidou, seguimos para um dos bairros mais fascinantes de Paris: Montmartre. Localizado sobre a colina mais alta da cidade, esse antigo vilarejo preserva uma atmosfera completamente diferente dos grandes bulevares e avenidas monumentais da capital francesa. Suas ruas estreitas, escadarias, pequenas praças e edifícios baixos criam um cenário que parece ter parado no tempo. Para quem visitava Paris pela primeira vez, caminhar por Montmartre era descobrir uma cidade mais intimista, onde arte, música e história convivem naturalmente. Ao longo dos séculos, o bairro tornou-se um refúgio para pintores, escritores, músicos e sonhadores, transformando-se em um dos maiores símbolos da vida boêmia parisiense.

A colina que inspirou gerações de artistas
Muito antes de se tornar um dos pontos turísticos mais visitados da França, Montmartre já atraía artistas em busca de inspiração. No final do século XIX e início do século XX, o bairro reunia uma grande concentração de talentos. Edgar Degas, Paul Cézanne, Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Vincent van Gogh e Henri de Toulouse-Lautrec passaram por suas ruas, cafés e ateliês. Mais tarde, Pablo Picasso também faria dali um de seus primeiros endereços em Paris. O custo relativamente baixo dos imóveis, aliado ao ambiente descontraído e criativo, favorecia a instalação de estúdios e oficinas de arte. Até hoje, caminhar por Montmartre é sentir a presença desse passado artístico, percebendo como a paisagem preserva a essência de um bairro que ajudou a escrever importantes capítulos da história da pintura moderna.

A Place du Tertre e seus artistas de rua
Nosso passeio nos levou até a Place du Tertre, a praça mais famosa de Montmartre. Cercada por cafés, restaurantes e pequenas galerias, ela continua sendo um ponto de encontro para artistas que expõem suas pinturas e produzem retratos ao vivo dos visitantes. Cavaletes ocupam praticamente toda a praça, criando uma verdadeira galeria de arte ao ar livre. Observamos aquarelas, caricaturas, paisagens de Paris e reproduções de grandes mestres, muitas delas produzidas diante dos próprios turistas. O ambiente era alegre, descontraído e bastante fotogênico. Mesmo após tantas décadas, a praça preserva o espírito criativo que tornou Montmartre conhecido em todo o mundo. Era impossível não imaginar quantos artistas famosos haviam caminhado por aquele mesmo lugar em busca de inspiração.

Basílica de Sacré-Coeur, o ponto mais alto de Paris
Poucos metros adiante alcançamos a Basílica de Sacré-Coeur, construída no ponto mais elevado de Paris. Erguida em mármore branco, sua arquitetura mistura elementos dos estilos romano e bizantino, destacando-se pela grande cúpula central e pelas torres arredondadas. A construção começou em 1875 e foi concluída em 1914 como um símbolo religioso e nacional. Sua posição privilegiada faz dela um dos edifícios mais visíveis da cidade. Ao subir sua extensa escadaria, compreendemos por que esse é um dos lugares mais visitados da capital francesa. A basílica domina a paisagem de Montmartre e oferece um dos panoramas urbanos mais impressionantes de Paris.

Um pôr do sol inesquecível sobre Paris
O dia estava excepcionalmente bonito, e tivemos o privilégio de assistir ao pôr do sol diante da Sacré-Coeur. Do mirante, Paris parecia se estender até o horizonte, revelando seus telhados, avenidas e monumentos pouco a pouco iluminados pelas luzes do entardecer. Permanecemos ali durante bastante tempo apenas contemplando a cidade. Ao nosso redor, músicos se apresentavam espontaneamente na escadaria, casais aproveitavam o momento e artistas buscavam registrar aquela paisagem em telas e desenhos. A atmosfera era tranquila, quase contemplativa. Foi um daqueles instantes que permanecem vivos na memória muito depois do fim da viagem. Algumas das melhores lembranças de um destino não são necessariamente os monumentos, mas a forma como vivemos cada lugar.

De Montmartre para Saint-Germain-des-Prés
Ao anoitecer, deixamos Montmartre e seguimos para outro bairro que desempenhou papel fundamental na vida intelectual parisiense: Saint-Germain-des-Prés. Se Montmartre ficou conhecido pela efervescência artística do final do século XIX, Saint-Germain tornou-se, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, um dos grandes centros da literatura, da filosofia e da vida cultural francesa. Cafés históricos, livrarias e pequenas galerias ajudaram a construir sua identidade. Para nós, o bairro tinha um significado especial porque já havíamos conhecido alguns de seus cafés mais famosos nos dias anteriores. Naquela noite, entretanto, viveríamos uma experiência diferente: encontrar amigos brasileiros que também faziam parte da história recente do jornalismo nacional.

Um jantar na tradicional Brasserie Lipp
Nosso destino foi a Brasserie Lipp, uma das instituições gastronômicas mais tradicionais de Paris. Inaugurada em 1880, ela preserva até hoje boa parte de sua decoração original, marcada por painéis de azulejos, espelhos e bancos revestidos em couro. Frequentada ao longo das décadas por escritores, jornalistas, políticos e intelectuais, tornou-se um verdadeiro símbolo de Saint-Germain-des-Prés. Foi ali que encontramos Etevaldo Dias e Ingrid, amigos de Sebastião Nery. Etevaldo ocupava, na época, um dos cargos mais importantes do jornalismo brasileiro como diretor do Jornal do Brasil. O jantar transcorreu em um ambiente agradável, repleto de conversas sobre política, cultura, literatura e os acontecimentos que marcavam o início da década de 1990.

Um reencontro que atravessou o Atlântico
Mais do que um jantar em um restaurante histórico, aquela noite teve um significado especial porque nos permitiu reencontrar brasileiros em pleno coração de Paris. Viajar, muitas vezes, também significa fortalecer amizades e criar novas conexões. A convivência entre Sebastião Nery e seus amigos mostrava como a comunidade brasileira ligada à cultura e ao jornalismo mantinha fortes laços mesmo vivendo no exterior. Para nós, que estávamos iniciando nossa descoberta da Europa, era uma oportunidade de participar dessas conversas e perceber como Paris sempre exerceu enorme fascínio sobre intelectuais, artistas e escritores brasileiros.

Café de Flore, um dos templos da intelectualidade francesa
Ao deixarmos a Brasserie Lipp, a noite ainda reservava outra agradável surpresa. Encontramos outro casal de amigos de Sebastião, Mauritônio e Maria Helena, que nos convidaram para continuar a confraternização no lendário Café de Flore, localizado praticamente em frente ao restaurante. Fundado no final do século XIX, o café tornou-se um dos maiores símbolos da vida intelectual parisiense. Foi frequentado por escritores, filósofos, artistas e jornalistas, consolidando sua fama especialmente durante o século XX. Sentar-se em uma de suas mesas representava muito mais do que tomar um café ou um vinho. Era participar de uma tradição cultural que atravessou gerações e ajudou a construir a identidade de Saint-Germain-des-Prés.

Entre Sartre, Simone de Beauvoir e o existencialismo
O Café de Flore ficou mundialmente conhecido por ter sido um dos locais preferidos de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Durante anos, ambos utilizaram suas mesas como espaço de trabalho, discussão e convivência intelectual. Ali amadureceram muitas das ideias que contribuíram para consolidar o existencialismo como uma das correntes filosóficas mais influentes do século XX. Outros escritores e artistas também frequentaram o estabelecimento, reforçando sua reputação como um dos cafés mais importantes da Europa. Enquanto apreciávamos um bom vinho francês, Sebastião compartilhava histórias sobre aqueles personagens e sobre a intensa vida cultural que caracterizou Paris durante grande parte do século passado.

Um brinde antecipado ao novo ano
A conversa foi tão agradável que perdemos completamente a noção do tempo. Entre uma taça de vinho e outra, histórias do Brasil, da França, do jornalismo e da literatura se misturavam naturalmente. Já passava das duas horas da madrugada quando decidimos brindar, antecipadamente, a chegada do novo ano com um legítimo champanhe francês. Foi um encerramento perfeito para um dos dias mais especiais daquela primeira viagem à Europa. Havíamos começado a manhã explorando a Paris dos artistas de Montmartre e terminávamos a noite mergulhados na atmosfera intelectual de Saint-Germain-des-Prés. Mais do que conhecer monumentos, estávamos descobrindo o espírito de Paris. Essa convivência com pessoas especiais e com lugares carregados de história transformou nossa experiência em algo muito mais profundo do que um simples roteiro turístico. Foi, sem dúvida, um daqueles dias que ajudaram a definir para sempre a maneira como passamos a viajar pelo mundo.

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Joaquim Nery Filho é geógrafo, agente de viagens e empresário do showbusiness. Apaixonado por viagens e fotografia.


